As belezas de Quioto e um bife do outro mundo

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Quioto, que foi capital do Japão por mais de mil anos, até 1869, é uma cidade fantástica. Tem um ambiente descontraído para uma cidade com um milhão e meio de habitantes. Avenidas largas, com espaço, um transito que não é caótico, apartamentos espetaculares sobre o rio, cultura, gastronomia e … Gion, o ultimo bairro japonês onde ainda há gueixas.

Fiquei encantado com o ambiente e alegria da cidade e tive uma cena curiosa:

Os táxis em Quioto são quase todos de um modelo Toyota dos anos 70, grande, de tração traseira. São todos pretos e sempre impecavelmente limpos, a brilhar. Provavelmente fabricaram-nos até tarde, tal como os táxis londrinos. Os chauffeurs são uns senhores, vestidos de fato e gravata, discretos e educados. Alguns até andam de boné, como usavam nos anos sessenta em Lisboa. Serão milhares destes táxis a circularem na cidade.

No dia em que cheguei, parei numa bomba de gasolina onde estava um a abastecer enquanto o taxista dava uns retoques de limpeza no porta bagagens.

Perguntei-lhe o caminho para o hotel que tinha reservado e, muito simpaticamente explicou-me, não sem antes se concentrar para contar quantas ruas eu teria que passar antes de virar à esquerda ou direita, para depois explicar com firmeza: one, two, three, four, FIVE, LEFT. One, two, THREE, RIGHT. E assim me indicou o caminho, com convicção. Muito engraçado.

Agradeci-lhe e segui viagem. No dia seguinte, quando procurava o caminho para Gion, já longe de ali, seguia por entre os carros numa enorme fila e decidi parar junto a um dos muitos táxis para perguntar o caminho ao taxista. Era o mesmo do dia anterior. Inacreditável. Ele achou tanta graça quanto eu e desatámos os dois a rir com ele a dar-me palmadas no depósito da moto antes de me explicar o caminho da mesma forma. One, TWO, RIGHT. Extraordinário.

Na noite anterior tinha saído do hotel para procurar um restaurante onde jantar. Na esquina de uma movimentada rua vi um “steak house” com bom aspecto. A parte onde me sentei era uma pequena sala mas com janelas largas, a dar para duas ruas, só com meia dúzia de mesas pequenas e altas e bancos para nos sentarmos. Tinha boa onda e boa música a tocar. Sentei-me na única mesa livre. Pedi o menu e uma cerveja à menina gira que me atendeu. Recomendou-me a carne de lombo. Avisou-me que os pratos traziam só 100 gramas de carne, uma batata, um tomate e grelos. Junto trazia outro A4 plastificado onde recomendavam o Kobe beef. Olhei para o menu. O lombo na carne normal custava 1890 yenes, o equivalente a 17 euros. Do Kobe, que vinha por cima, pareceu-me ver 1200.

Pedi-lhe que me trouxesse então carne do lombo mas desse mais barato, de Kobe. Ela só ouviu essa parte e confirmou:

– So it’s a Kobe beef Sirloin

– Yes, that’s right”

Passado um bocado trouxe-me um prato rectangular, com uns vinte centímetros de comprimento e dez de largura onde estavam os tais 100 gramas do lombo de Kobe, cortado às fatias, uma rodela de batata, grossa, um mini tomate e um reduzido cacho de grelos. Pedi faca e garfo mas não precisava. Quando provei o primeiro bocado de carne não queria acreditar. Em sessenta anos de vida nunca tinha comido uma carne tão boa, de longe. Era muito tenra, mas ao mesmo tempo não se desfazia, o sabor era extraordinário, estava grelhada no ponto exato e tinha a pequena e certa quantidade de gordura. Inexplicável. A primeira coisa que pensei foi que estaria ali caído no dia seguinte ao almoço.

Saboreei bem aquela carne maravilhosa, mas despachei os 100 gramas mais a rodela de batata, o tomate e os grelos em cinco minutos. Pensei em pedir uma segunda dose mas, como sou rapaz de pouco alimento, achei que por hoje chegava.

Dirigi-me ao bar para pagar a conta, um costume no Japão onde nunca se deixa gorjeta porque eles não estão à espera e até consideram uma ofensa. A menina que me serviu apresentou-me a conta: 13.340 Yenes.

– Desculpe mas enganou-se. Não são 13.000 mas 1300”.

– Não. São 13.000. O senhor pediu “Kobe beef”.

– Mas no menu.

– No menu vem lá Kobe beef a 12.000 Yenes.

E foi buscar o menu. Onde eu, à primeira vista tinha visto 1.200 até por parecer o mais lógico, estavam 12.000. Ou seja, aquele jantar, composto por 100 gramas de carne, uma rodela de batata, um mini tomate, 10gr de grelos e uma cerveja custou-me a módica quantia de 120 euros. Rir foi o melhor remédio.

Quando regressava ao hotel pensei: ainda bem que isto me aconteceu. Se tenho sabido o preço antes nunca tinha passado por esta experiência de comer uma carne que nem sabia existir e sei que é uma coisa que nunca irei repetir na vida pois, mesmo que um dia seja rico, nunca vou pagar 120 euros por cem gramas de carne porque, simplesmente, acho um desperdício.

Esta deve ser a tal carne de que tinha ouvido falar de vacas a quem fazem massagens e põem a ouvir música clássica enquanto não vão para o tacho.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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