Dizer que se trata de uma revolução é um exagero. Garantir que se sente a diferença custa pouco depois de três centenas de quilómetros no renovado C4 Cactus. Verdade que o carro é basicamente igual mas, em termos de conforto, temos o regresso a padrões que ajudaram a fazer a história da Citroën. E o carro que nasceu quase um SUV urbano, e até vendeu bem, torna-se agora numa simpática berlina. A suspensão com duplos batentes hidráulicos progressivos ajuda, decididamente, e veio para ficar… Estreei-me no banco do lado e, pouco depois de arrancar, senti-me a viajar no tempo e a pensar se não estaria num velho DS de suspensão hidráulica, embalado por aquela sensação de leveza inigualável. Na primeira curva, comecei a sentir a diferença. O prometido “tapete voador” afinal não era apenas um confortável colchão de água silencioso. Ganhava outra vida em curva e, em vez do esperado molejamento, revelava-se aquela firmeza que leva a cumprir em curva e a ganhar confiança. Com uma nota especial: mantinha-se o conforto. A suspensão de duplos batentes hidráulicos progressivos – estreada no “chinês” C5 Aircross – causou-me boa impressão e acredito que, bem depressa, vai generalizar-se na gama Citroën. O sistema é simples, o amortecedor está no meio de dois batentes, um de alívio e outro de compressão. Daí, e de acordo com o momento, mola e amortecedor controlam em conjunto os movimentos verticais sem a intervenção dos batentes, quando a suspensão não é chamada a grande esforço. Em situações de compressão e alívio mais significativas, como explica a Citroën, a mola e o amortecedor trabalham com os batentes superior e inferior de compressão hidráulica. Retarda-se assim o movimento de uma forma progressiva, evitando e libertando sempre uma parte da energia que o batente hidráulico absorve e dissipa. Não há, por isso, as bruscas pancadas nos limites do curso do amortecedor. 
No que respeita à mala, o espaço (358 litros) anda pela mediania e não compromete. Menos brilhante é a altura do plano de carga e o desnível para o fundo, que torna menos fácil o manuseamento de uma mala mais pesada. Os bancos traseiros rebatem na proporção 1/3-2/3 e a chapeleira continua a ser uma tampa rígida ligada ao portão. O ambiente a bordo ganha imagem mais rica quando se conta com os bancos Advanced Confort, valorizados também do ponto de vista do design e dos acabamentos. Mas o resto mantém-se, incluindo alguns plásticos que não parecem ao nível do original design do interior, com o porta luvas a sugerir a mala de viagem e as pegas das portas a darem continuidade à mesma ideia. Interessante é constatar como esta nova realidade consegue ser vivida na ideia de outro automóvel, mais simplesmente como se vestiu a imagem do Cactus enquanto confortável berlina. Antes de mais ficaram reduzidos à expressão mínima os emblemáticos Airbumps, agora discretamente integrados na bordadura plástica que protege todo o contorno da carroçaria, guarda-lamas incluídos. “Caíram” também as barras do tejadilho, baixando assim a silhueta. Diferença maior, a cosmética operada na dianteira que ganha familiaridade com a solução seguida no C3 e no “seu” Aircross. Um toque de irreverência em que se destacam os LED diurnos na continuidade do emblema com o double Chevron, a encimar três planos luminosos – os faróis redesenhados e com uma moldura que os destaca, as luzes de nevoeiro no para-choques. Mais baixo e com a frente redesenhada, o Cactus parece mais compacto e robusto e também mais largo, principalmente atrás, em função do alargamento das luzes traseiras (dois módulos por ótica), igualmente com nova assinatura. Em termos gerais, operação conseguida, um carro mais sóbrio, adaptado, sem dúvida, à imagem da berlina.
- April 6, 2026