Quatro chacais em Death Valley

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Quando acordei o dia estava cinzento mas vim cá fora e a temperatura já superava os 25º, de maneira que ainda não foi hoje que vesti as calças do fato, viajando de jeans, como tenho feito quando está muito calor desde que umas tonturas na Índia, quando as temperaturas superavam os 42º, quase me fizeram desmaiar.

Death Valley é um enorme vale no meio do deserto sem sinais de vida pois não tem água e as temperaturas ali no verão são praticamente insuportáveis. Do alto de um dos pontos de observação vemos o que parece um lago salgado no centro de uma zona rochosa multicolor. Fantástico. Aquele vale estende-se para Norte e, há muitos séculos atrás já ali houve água em abundância.

Percorri cerca de 200 Km naquele vale deserto. Este é um ponto turístico conhecido e, sendo domingo tinha bastante gente a visitar e vários grupos de motos, normalmente entre duas a cinco, na maioria Harleys não só de americanos de Las Vegas ou outras cidades dos Estados vizinhos mas também de turistas que as alugam para passear pela zona.

Encontrei um americano e um sueco que viajavam juntos e já tinham estado em Portugal, numa reunião de um clube internacional de motociclistas católicos.

Disse-lhes que era ateu e o americano, que tanto ele como a sua Harley de garfo estendido pareciam retirados diretamente do filme Easy Rider, não queria acreditar.

– Não pode. Tem que se converter. E deu-me um pequeno catálogo que me levaria a Deus. Por fim disse-me: não se esqueça que se morrer agora vai parar ao inferno. Será que se Deus existisse seria tão radical para com um pobre pecador como eu?

Continuei através do vale e, no meio de uma grande reta, quatro chacais com ar esfomeado atravessavam a estrada. Parei para tirar umas fotografias e, ao longe, comecei a ver uma espécie de nuvem branca rasteira sobre o vale. O vento estava a soprar cada vez mais forte. Quando cheguei aquela zona a nuvem branca era uma tempestade de areia muito fina que entrava pelos cantos do capacete e ia-me para os olhos e nariz. Não via mais de dez metros à frente da moto. Felizmente só durou uns cinco quilómetros, até começar a subir as montanhas do outro lado do vale. Aí o céu ficou mais escuro e começou a chover mas nunca muito forte. Cá no alto entrei num planalto e começaram a aparecer uma ou outra pequena vila e bombas de gasolina. Tinha percorrido mais de 300 Km na zona do Death Valley. Acabei por encontrar um Hostel California na vila de Bishop, com uma cama a 25 dólares.

Tinha graça porque a maioria dos clientes não eram miúdos, como habitualmente, mas hippies nos seus quarentas, cinquentas. Tinham dois jipes americanos dos anos sessenta e setenta parados à porta, amolgados e mal tratados, com o porta bagagens, já sem tapete há muito anos, cheio de tralha. Fumavam charros nuns sofás velhos que formavam uma sala no jardim e à noite tocavam viola na sala. Um deles, nas duas horas antes de partir, perdeu o telemóvel quatro vezes. Mas conhecia bem a zona e deu-me preciosas indicações sobre o trajeto que devia seguir nesse dia a caminho de Lake Tahoe. Quando lhe elogiei o jipe disse:

-Yeah, but this fucking shit does only ten miles to the gallon”. Curtido.

Parti para Norte e poucos quilómetros depois comecei a ver montanhas a Ocidente com neve nos topos. Passados uns 100 Km cheguei à entrada do parque Yosemin, que queria visitar. Parei na bomba de gasolina para atestar e o homem disse-me que tinha ideia que a estrada estava fechada por causa da neve.

– Pelo menos ontem à noite estava.

Mas um rapaz que estava a abastecer ouviu a conversa, consultou a internet, e veio-me informar que já tinham aberto a estrada. De qualquer forma esperava-me frio e tratei de enfiar as calças do fato com o forro suplementar e os dois forros interiores do blusão. De facto os fatos de moto dos dias de hoje, como este da Spidi, são fantásticos a nível de proteção contra frio, chuva e estoiros.

 

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