A indústria automóvel atravessa um gigantesco momento de reformulação, ajustando-se a processos inovadores como os da eletrificação e conectividade, algo a que nem os fabricantes de pneus estão alheios. Com efeito, têm um grande papel na segurança e no incremento da autonomia dos veículos elétricos através de novas tecnologias e modelos de desenvolvimento técnico.
Para tentarmos perceber melhor de que forma estas novas tendências e, sobretudo, a eletrificação influencia o desenvolvimento de pneus, entrevistámos André Bettencourt, diretor de Marketing da Bridgestone Europe NV/SA em Portugal, que nos explicou que, não sendo apenas negros e redondos, os pneus têm diversas particularidades que podem ajudar decisivamente na eficácia dos veículos elétricos.
Motor24: A indústria automóvel moderna alterou-se de forma evidente nos últimos anos e os pneus seguiram a mesma tendência de entrada num novo ciclo: como é que a Bridgestone assume estas mudanças rumo à eletrificação e à necessidade de reduzir os consumos e emissões?
André Bettencourt: Na Bridgestone vemos um conjunto de grandes tendências a afetar o futuro do setor automóvel, como é o caso dos carros conectados, autónomos, partilhados e elétricos. Os veículos autónomos do futuro serão, seguramente, eletrificados, por isso os pneus para carros elétricos também serão usados nessas circunstâncias, mesmo que recursos adicionais sejam necessários. Por exemplo, estes pneus exigirão um sistema de identificação embutido, serão conectados e terão tecnologias sensoriais – tudo isto ajudará os algoritmos de direção a entender melhor o que está a acontecer ao redor do veículo, a fim de tomar melhores decisões.
A verdade é que desenvolver pneus para veículos elétricos traz alguns desafios novos aos fabricantes de pneus. Um primeiro tem a ver com o aumento da autonomia dos carros, que tornam obrigatórios os pneus Ultra Low Rolling Resistance, pois reduzem as perdas de energia. E a resistência ao rolamento dos pneus não é a única fonte de perda de energia num veículo – o arrasto aerodinâmico é outro fator importante no qual os pneus desempenham o seu papel, e isso tornou-se numa prioridade na projeção de veículos elétricos. Outro aspeto fundamental tem a ver com a necessidade de criar pneus leves, uma vez que a inércia do veículo contribui para a perda de energia durante a aceleração e, infelizmente, nem toda essa energia pode ser recuperada durante a travagem.
M24: Naturalmente, este tipo de pneus acarreta novas tecnologias e, com isso, custos usualmente mais elevados no seu processo de desenvolvimento. Como é que se consegue assegurar que o custo para os consumidores não aumenta de forma elevada com o aumento do nível de desenvolvimento?
AB: Várias tecnologias inovadoras devem ser desenvolvidas e aplicadas para atender a todos os requisitos dos carros elétricos ao mesmo tempo. Por exemplo, a Bridgestone aplica o design virtual completo para otimizar o layout do padrão para o aprimoramento do desempenho do contacto, maximizando assim o desempenho de aderência em piso molhado, desgaste e aquaplanagem. Além disso, os compostos do piso desempenham um papel importante. Nesta área, uma das soluções que a Bridgestone tem desenvolvido para o realce do desempenho simultâneo é o aumento da sinergia entre as matérias-primas e do processo de mistura, através de um novo processo de “Nano reação seletiva de mistura”.
A Bridgestone trabalhou não apenas na melhoria do componente de cada pneu, mas num perfil de pneu totalmente novo: ologic. Estes pneus têm especialmente grandes diâmetros e as bandas estreitas, que reduzem a deformação e a perda de energia durante a condução, ajudando a reduzir a resistência ao rolamento, enquanto, ao mesmo tempo mantendo os níveis de segurança, o mesmo que os pneus convencionais. Além disso, a largura reduzida ajuda a diminuir o arrasto aerodinâmico, outro fator importante que afeta a perda de energia do veículo.
M24: Neste mesmo sentido, será possível desenvolver pneus que se adaptem a modelos elétricos ou de combustão interna (ICE) e assim manter os custos sob controlo?
AB: Os pneus para carros elétricos têm algumas particularidades que levam a que seja necessário um desenvolvimento especial. Por exemplo, os motores elétricos têm um torque [binário] mais alto quando comparados com os carros ICE padrão. Isso proporciona-lhes uma melhor aceleração do que os veículos convencionais, mas representa um desafio extra para os pneus: eles precisam de garantir uma melhor resistência ao desgaste sem comprometer a segurança, nem a aderência em piso molhado e piso seco.
Para além disso, as baterias são pesadas e, até que uma geração completamente nova de baterias esteja disponível, elas irão representar um aumento de peso significativo para veículos elétricos sempre que o alcance de direção for estendido. Mais baterias exigem mais espaço, mas os pneus não podem ser mais largos do que são hoje, então o próximo desafio é desenvolver os mesmos pneus para transportar mais carga.
M24: Apesar de tudo, os pneus para veículos eletrificados ou de baixas emissões são conhecidos por serem pneus com poucas apetências desportivas, uma vez que o nível de aderência acaba por não ser o mesmo do que um pneu dito performance. Como é que se consegue contornar essa problemática quando existem também veículos elétricos que hoje não são só veículos para ir do ponto A ao B, mas que propõem também mais emoção?
AB: Alguns dos produtos que apareceram no mercado criaram a ideia que os pneus com baixa resistência ao rolamento são menos eficientes do ponto de vista da aderência. No caso da Bridgestone temos seguido direções talvez um pouco contrárias e um bom exemplo é o Turanza T005 que para além de ter uma classificação A e B na resistência ao rolamento, tem uma classificação A na aderência no molhado. É um produto que tem obtido excelentes críticas dos consumidores e dos órgãos de comunicação social especializados alemães para os quais os resultados dos testes são muito relevantes. Paralelamente e novamente na Alemanha, a ADAC classificou o T005 como um bom produto e a TUV reconheceu-o como o melhor produto do seu segmento.
Mas indo ainda mais em direção à pergunta indicamos o caso da BMW com os seus modelos i3 e i8. Veículos elétricos em que no caso do i8 para além de ser um automóvel elétrico é também um superdesportivo e isso atesta bem do caminho que estamos a percorrer e dos produtos que estamos a disponibilizar não só a pensar na menor resistência ao rolamento por causa dos veículos elétricos, mas também a pensar que dentro deste segmento também há clientes que procuram emoção com segurança e eficácia.
M24: Com os veículos elétricos, há um maior cuidado das marcas ao nível da insonorização interior. Como é que os pneus contribuem para esse mesmo efeito, sendo que em muitos casos apenas se ouve o ruído de rolamento?
AB: Um dos desafios no desenvolvimento de pneus para veículos elétricos é, de facto, o ruído: o uso de motores elétricos silenciosos aumenta a sensibilidade ao ruído gerado pelo rolamento dos pneus.
M24: Qual o nível de entrosamento entre uma marca de pneus e um fabricante de automóveis no sentido de produção de pneus que melhor se adequem a um determinado modelo?
AB: Parcerias e discussões abertas com OEMs são cruciais, como demonstrou o desenvolvimento do i3. Somente utilizando essa abordagem – ajuste adequado da correspondência veículo-pneu – é possível superar os desafios enfrentados pelo desenvolvimento de pneus para veículos elétricos.
Quando os veículos elétricos ainda eram recentes, fomos escolhidos como parceiros da BMW para desenvolver pneus ologic que complementaram a manipulação dinâmica e performance sustentável do i3 revolucionário e i3S, veículos totalmente elétricos.
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