“O que a Tesla provou foi que a eletrificação podia chegar aos Premium”

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Nome incontornável do panorama atual da indústria automóvel, a Tesla também foi falada na recente conferência dedicada ao futuro do automóvel por ocasião da abertura do Salão Automóvel de Lisboa, com Erik Jonnaert, secretário-geral da Associação Europeia de Construtores Automóveis (ACEA), a considerar que houve méritos por parte da companhia de Elon Musk, mas que os construtores Premium estabelecidos trabalham para apanhar a marca americana muito rapidamente.

Referindo que os americanos são mais hábeis no marketing e nas suas apresentações do que os europeus, Jonnaert recordou o início das operações da Tesla e que a sua génese foi feita em parceria com um outro fabricante de peso, a Daimler AG, despontando para um caminho que mostrou a outros fabricantes Premium que havia espaço para aquela tecnologia nos segmentos superiores.

“Quando começou, a Tesla fê-lo em parceria com a Daimler AG. Passados alguns anos essa parceria acabou e hoje a Tesla é uma marca independente. Mas, o que eles provaram foi que também se podia trazer a eletrificação para o segmento Premium. Agora, o que vemos é que os outros construtores Premium seguiram o mesmo caminho e irão cumpri-lo possivelmente mais depressa”, referiu o secretário-geral da ACEA em resposta a uma questão sobre a caracterização da Tesla enquanto “ameaça” para os demais fabricantes tradicionais.

Da mesma forma, Jonnaert mostrou-se agradado com a entrada em jogo de novas companhias de mobilidade, algumas com o poder disruptivo de criar grandes alterações na indústria automóvel, aceitando que “isso é uma circunstância do mercado” e que os fabricantes mais tradicionais “estão muito atentos a estas novas tendências e é por isso que muitas marcas têm já serviços semelhantes e parcerias com esses novos ‘players'”.

Interpelando para comentar aquilo que a indústria ‘aprendeu’ após o caso polémico do ‘Dieselgate’, Jonnaert recordou um cenário muito peculiar na Europa em que o Diesel foi encarado como peça fundamental para se atingirem metas muito restritas em termos de emissões de CO2. Neste âmbito, admitiu que acabaram por ser essas mesmas metas e a necessidade de as cumprir que determinou a opção de praticamente todos os construtores em favor do Diesel.

Atualizar frotas para melhorar o ambiente

Outro dos aspetos mais importantes referidos por Jonnaert foi o da necessidade de renovação da frota automóvel, quer pública, quer privada. Por um lado, os gestores de frotas “terão uma grande palavra”, uma vez que serão os grandes frotistas que poderão começar por utilizar e implementar a tecnologia elétrica, apontando que os governos devem também favorecer essa mudança.

Por outro lado, recordou que os automóveis usados têm a responsabilidade de 90% da totalidade das emissões do setor, sendo apenas 10% pertencentes aos modelos mais recentes e eficientes. Sobre este assunto, o responsável da ACEA indicou que “temos de acelerar a mudança de frotas como forma de baixar as emissões”, referindo uma vez mais a questão dos incentivos fiscais que favoreçam os veículos mais ecológicos.

“Precisamos de soluções integradas não só específicas do automóvel, mas entre setores, como os das telecomunicações e das tecnologias de informação. Mas, irá requerer também mais diálogo, porque não poderemos forçar estas tecnologias pela garganta dos consumidores. Temos de lançar a discussão entre os diversos setores para que as pessoas percebam a situação e, da parte delas, compreender as suas reservas e receios, para que possamos trabalhar neles e oferecer soluções melhores. Além do dialogo, temos de consolidar a experiência e conhecimento entre setores, porque claramente vemos uma movimentação para uma indústria de organização muito mais horizontal graças à tendência da digitalização”, referiu ainda.