Fiat 124 Spider 1.4 Turbo Multiair 140 CV Lusso

Reforçar a personalidade de um roadster com o carisma do Mazda MX-5 não é fácil, mas a Fiat conseguiu-o. Combinando estilo italiano com tecnologia japonesa, o 124 Spider é um dos cabrios mais apetecíveis do momento.

Recuemos à década de 60 do século passado. Redescobertos pela indústria automóvel, pequenos descapotáveis de dois lugares animam as estradas europeias, refletindo o estilo e a personalidade de proprietários cada vez mais exigentes. A maioria vem de Inglaterra. Em Itália, a Fiat procura uma alternativa acessível ao Alfa Romeo Giulietta Spider. Esta começa a tomar forma em 1965, com o Fiat 850 Spider Bertone. Um Fiat 850 descapotável produzido pela carroçadora de Nuccio Bertone, a partir de um desenho de Giorgetto Giugiaro. No entanto, seria necessário esperar um ano para conhecer o descapotável mais carismático do construtor de Turim.

Com traços do mestre Pininfarina, que assina no mesmo ano o Alfa Romeo Duetto, é apresentado o Fiat 124 Spider. Produzido entre 1966 e 1985, sobre a base do humilde Fiat 124, foi um sucesso instantâneo, tendo os Estados Unidos como principal mercado de exportação, onde foi comercializado até 1982 como Fiat Spider. Na Europa, são as versões Abarth Rally e 124 Sport Spider que ficarão para sempre no imaginário dos adeptos do desporto automóvel.

Tração traseira

Avancemos 50 anos,até ao presente, e encontramos um novo Fiat 124 Spider. A elegância intemporal das linhas, traçadas no Centro de Estilo do Lingotto, com o longo capot a terminar num habitáculo recuado seguido por uma traseira curta, remete para uma arquitetura há muito abandonada pela Fiat, a tração traseira. Entre as duas gerações de 124 Spider, a Fiat lançou, nos anos 90, o Barchetta. Da autoria do designer grego Andrea Zapatinas, o roadster partilhava a maioria da mecânica com o Punto, incluindo a tração dianteira.

No regresso aos roadsters, que chegou a ser equacionado para a Alfa Romeo, a Fiat associou-se aos especialistas da Mazda, partilhando toda a mecânica, com exceção dos motores, com o icónico MX-5. Uma partilha extensível ao interior, onde as diferenças são feitas pelos logótipos. A mesma posição de condução encaixada, volante com regulação apenas em altura, túnel central elevado, seletor da caixa onde a mão instintivamente o procura, porta-luvas atrás dos bancos e capota têxtil de acionamento manual.

Se por dentro não há diferenças entre o roadster italiano e o japonês, o que não tem nada de errado, por fora o Fiat apresenta uma personalidade mais vincada. Estica o comprimento até aos quatro metros, acrescenta nervuras ao capot e desenha grelha dianteira e óticas traseiras evocativas do 124 Spider de 1966. Parece pouco, mas tem aquele toque italiano que atrai ao primeiro olhar e faz o Mazda parecer “mais um” MX-5.

Multiair

Sob o capot, no lugar dos blocos 1.5 ou 2.0 naturalmente aspirados do MX-5, encontra-se o motor 1.4 Turbo Multiair do Fiat 500 Abarth modificado para montagem longitudinal. Sobrealimentado por uma turbina Garrett 1446, debita 140 CV às 5000 rpm e 240 Nm de binário às 2250 rpm. Originária da anterior geração do MX-5, a caixa manual de seis velocidades perde a fluidez e a precisão mecânica na adaptação ao bloco de quatro cilindros italiano.

Um toque no botão de arranque e percebemos que o Fiat tem a voz mais grossa que os irmãos japoneses. Junte-se o ruído produzido pelo porta-bagagens traseiro, opcional específico da Mopar para o 124 Spider, e as conversas têm de subir de tom, muito antes de chegar a velocidades de autoestrada. Fugindo aos excessos de firmeza que levam os carros a saltar sobre pisos degradados, a suspensão de duplos triângulos à frente e multibraço atrás, privilegia o conforto. A carroçaria adorna, mas pouco, sem reações inesperadas no limite do curso dos amortecedores.

Extensão do Condutor

Integrando o condutor no chassis como nenhum outro Fiat, o 124 Spider comunica com precisão o que se está a passar com cada um dos eixos. Segura e comunicativa, a direção de duplo pinhão e cremalheira só perde a sensibilidade sobre pisos muito degradados, a frente é pouco dada a subviragens. Convida mesmo a levar a travagem ao limite, para que no momento de inserção a traseira rode por inércia. Também o pode fazer em aceleração, mas sem a interatividade do MX-5.

Muito dependente do turbo, o motor só acorda acima das 3000 rpm. Ganha força para levar a traseira de arrasto, se a direção assim o indicar, perdendo o fôlego por volta das 5000 rpm. Chega às 6500 rpm do redline, mas é um esforço que não compensa. Sem a energia ou precisão de resposta ao acelerador no limite do MX-5, o 124 Spider precisa dos travões para ajudar a colocar a traseira. Não demora muito para que o cheiro a líquido dos travões se sobreponha a qualquer maresia ou perfume de serra, mas a eficácia mantém-se da primeira à última curva. Segurar o regime na faixa ideal de utilização não dá descanso à caixa, convidando à prática do ponta/tacão para evitar queixumes dos pneus 205/45, montados em jantes de 17’’, durante as reduções.

Fantasma japonês

A gama Fiat 124 Spider não podia ficar completa sem uma versão Abarth, com motor mais potente e rotativo, espera-se, e autoblocante. Enquanto esta não chega, o bloco 1.4 Turbo Multiair de 140 CV faz as honras à casa desde os 27 800€. Tal como a potência, o preço fica entre os 25 970€ do MX-5 1.5 de 131 CV e os 39 831€ do MX-5 2.0 de 160 CV. O segundo e mais completo nível de equipamento, o Lusso ensaiado, eleva a fasquia até aos 30 300€, que sobem para os 35 450€ depois de adicionados opcionais como o touchscreen de 7’’, os faróis dianteiros Full LED ou o sistema de som Bose. De série traz as jantes de 17’’, o ar condicionado automático, o arranque sem chave ou os faróis de nevoeiro.

Com uma imagem claramente diferenciada do MX-5 que se esconde sob a carroçaria, o novo Fiat 124 Spider aponta diretamente ao coração do condutor que se identifica com a descontração do 124 Spider original. No entanto, apesar de todo o estilo, o novo roadster italiano acaba por ser traído pelo motor. Demasiado turbodependente, este parece desenquadrado num segmento que pede motores rotativos e divertidos de explorar nos limites. E com uma média ponderada de 8,8 l/100 km, muito inflacionada pelos 10,4 l/100 km registados em cidade, não chega a ser mais económico que o fantasma japonês. Mas a quem interessam umas gotas de gasolina ou o som de pneus a chiar quando se conduz um roadster impregnado de charme italiano?

Ricardo Machado

Fotografia: Vasco Estrelado

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