A revelação de um McLaren é sempre um momento de celebração, mas quando se fala do sucessor do mais mítico modelo de sempre da marca, a “festa” é ainda maior. Daí que seja tão agradável falar sobre o McLaren Speedtail, o modelo mais extremo de sempre a sair das linhas de produção de Woking e um carro destinado a contrariar os limites da lógica através de inovações. Como, por exemplo, uma carroçaria que “pode mesmo dobrar” num local preciso. Espantado? Então prepare-se para ficar boquiaberto com tudo o que vai surgir nos parágrafos seguintes…
A gota de água…A marca britânica afirma que o Speedtail combina formas esguias e harmoniosas, onde quase não cabe uma folha de papel entre as várias aberturas da carroçaria, com várias soluções aerodinâmicas que procuram maximizar as performances. Tudo isso fica também a cargo de uma estupenda motorização híbrida gasolina-elétrica, que coloca ao dispor do condutor um total de 1050cv. Com a velocidade máxima colocada nos 403 km/h, o modelo é tão extremo que a marca nem se preocupa em dar as especificações para os 0-100km/h. Ou tão pouco para os 0-200km/h. Avança logo para os dados do sprint até aos 300km/h, cumprido em 12,8 segundos, o que significa quase menos quatro segundos que o já espantoso McLaren P1.
O comprimento da alongada carroçaria do McLaren Speedtail coloca-se nos 5137mm de comprimento, enquanto a altura fica situada nos 1155mm. Mas isto é se não optar pelo modo de condução ‘Velocity’, em que a carroçaria é rebaixada mais 35mm e a altura se resume a somente 1020mm. Igualmente espantoso é o peso deste bólide, que se situa em apenas 1430kg. Para tal contribui o recurso em força à fibra de carbono. Entre as preciosidades das especificações, aqui fica mais uma. Para lidar com as performances deste hiperdesportivo, a Pirelli desenvolveu um conjunto de pneus PZero específicos para este carro.
O vento nem vai notar a passagem do McLaren Speedtail
Reduzir ao máximo o atrito ao rasgar o vento foi uma das maiores preocupações da marca de Woking, que optou por diversas aberturas estrategicamente colocadas na carroçaria, uma inovadora solução para as jantes e vários elementos ativos. Tudo isto vai garantir que o ar não forma turbilhões que prejudiquem o comportamento e rapidez do automóvel. Além disso, estas solução vão ter impacto no downforce gerado e na estabilidade enquanto se acelera para além dos 400km/h.
Nesta estrutura em fibra de carbono extra-fina surgem formas em gota de água na dianteira, que contempla desde logo duas aberturas nas laterais do nariz, de forma a alimentar de ar fresco os LTR (low temperatura radiators). Além destas duas aberturas, surgem mais duas no capot que vão ajudar a extrair o ar por dentro da carroçaria, sobre as cavas das rodas e o sistema de travagem em carbono, para a lateral. E, falando sobre o capot, ele contempla um prolongamento em cores pretas para ajudar a movimentar o restante ar através do grande para-brisas e entrada de ar superior “camuflada” para a retaguarda e motor.
Nas laterais temos igualmente algumas surpresas. A começar pela cobertura aerodinâmica para as jantes de 20” e 10 raios. Esta superfície plana evita que se formem aqui turbilhões de ar, guiando estas massas em direção das portas de abertura vertical, e conta com uma curiosidade. É o facto desta cobertura não se mover, ficando parada enquanto por trás de si as rodas vão fazendo o seu trabalho para mover o McLaren Speedtail.
Enquanto os HTR (high temperature radiators) estão integrados na estrutura das portas, existem outros segredos mais para trás. A começar pelo picotado atrás do grande vidro, que serve para otimizar o movimento do ar, estando estas canalizações separadas pela luz central de travão. E, mais abaixo, encontramos um par de ailerons ativos, de atuação hidráulica e que contam apenas com uma margem de 1mm de espaço entre si e a carroçaria, evitando também assim que se formem nesta zona fluxos revoltosos de ar e que prejudicam a aerodinâmica. Estes dois “flaps” vão permitir aumentar a capacidade de travagem, mas igualmente gerar mais downforce e aumentar a estabilidade quando se acelera para registos mais vertiginosos. De referir ainda que eles são fabricados em fibra de carbono flexível. A marca afirma mesmo que, graças a isso, o corpo do McLaren Speedtail “pode mesmo dobrar”, como se pode comprovar numa das fotos.
Para estes objetivos de máxima performance e estabilidade também contribuem as lâminas colocadas no prolongamento da carroçaria e o difusor, que dominam com os seus tons negros a parte posterior da viatura. De referir que esta zona é, tal como o splitter dianteiro e as saias laterais, fabricado num novo composto designado Titanium Deposition Carbon Fibre. Como o nome indica, trata-se de um material em que o titânio é combinado com a fibra de carbono, sendo fundido para se tornar parte integral desta malha de resistência extrema. E isso permite criar um composto com apenas 1000 fibras por fio, em comparação com as 3000 fibras habituais. Além de mais fino, outra vantagem apontada é precisamente a maior dureza obtida em comparação com a fibra de carbono pintada, pois esse processo de coloração pode comprometer a resistência da malha.
Falta, portanto, falar no exterior apenas dos retrovisores. O que, neste caso, significa falar das duas câmaras que surgem no momento da ignição da viatura. As suas imagens HD são apresentadas em ecrãs nas laterais do painel de instrumentos, excepto num momento. Isso é quando se aciona o modo Velocity (pensado para andar tão rápido que nem precisa de olhar para os retrovisores a verificar se está a surgir alguém…), em que estes dois pequenos apêndices, que prejudicam menos a passagem do ar, voltam a ser recolhidos para dentro da carroçaria.
Há ainda que destacar o logo de ouro de 18 quilates, mais uma forma do McLaren Speedtail homenagear o F1.
O interior do F1 deu um salto para o novo século
A configuração com lugar de condução ao centro é obviamente uma ligação entre o McLaren Speedtail e o seu antepassado espiritual. Mas a atmosfera é trazida para os tempos modernos, com os ecrãs táteis a darem origem a um cockpit igualmente centrado no condutor, mas onde praticamente não existem botões. Para tal contribui também o recurso a uma zona de controlo na zona superior do teto, onde se pode encontrar os comandos dos vidros e portas, painel “dinâmica ativa” e acionamento do modo Velocity. Destaque ainda para o sistema eletrocromático que permite escurecer a zona traseira do grande vidro e ainda para os bancos, que são personalizados de acordo com as dimensões do condutor.
Como já referimos, um dos destaques no novo hiperdesportivo está no recurso a novos materiais. E o interior não podia escapar a esta tendência. Assim temos, através de uma colaboração com os relojoeiros Richard Mille (parceira da McLaren na F1), uma Thin-Ply Carbon Fibre em estreia nos automóveis, que oferece a possibilidade de criar revestimentos com espessuras de apenas 30 microns. Produzida com fibras num ângulo de 45º, para parecer uma corrente de água, ela surge em locais como as patilhas e pegas do volante e no painel superior de controlo. De referir ainda que as mais exclusivas peles e lãs, fornecidas por marcas de referência, podem ser escolhidas para os detalhes do habitáculo nas decorações Dark Glacier ou Cool White..
O que representa este hiperdesportivo?
A chegada do Speedtail, cujas primeiras entregas estão planeadas para 2020, significa o começo de uma nova fase da McLaren. Procurando “embalar” e ganhar velocidade depois dos recentes anos de sucesso, este hiperdesportivo dá o pontapé de saída para o Track 2025, que prevê o lançamento de 18 novos modelos até metade da próxima década. E seguramente a marca não podia ter começado melhor, pois as 106 unidades (tal como no F1…) já foram todas vendidas. E cada uma delas com um preço, sem personalizações, que ronda os 2 milhões de euros.
Nuno Fatela/Turbo