A celebrar os cem anos de história, a BMW tem no i8 o seu símbolo do futuro. Quem diria que um carrinho como o Isetta seria a semente daquele que muitos já consideram o carro da década? Sessenta anos é o tempo que separa o Isetta do novo superdesportivo ecológico da BMW. E se em 1956 o microcarro revolucionou, o i8 representa hoje uma autêntica mudança de paradigma. Nasceu não só da ambição da marca alemã de construir um carro que competisse com a imagem de um McLaren P1, do La Ferrari ou do Porsche 918 Spyder como da necessidade de mostrar ao mundo a capacidade tecnológica da marca em fabricar carros cada vez mais sustentáveis do ponto de vista ambiental. O resultado não podia ser melhor, como o demonstra o baixo consumo e a elevada potência específica de 160 CV/litro alcançados pelo motor a gasolina deste módulo hibrido.
Este esquema permite que o i8 tenha tração dianteira, traseira ou total quando os dois motores se unem em uníssono, aproveitando as capacidades desportivas do i8 e gerando uma potência combinada de 362 CV. A sua gestão não podia ser mais completa, existindo para isso cinco modos de utilização distintos: o “Eco Pro” que reduz a potência do sistema de climatização e do motor com o objetivo de aumentar a autonomia, o “Confort”, talvez o mais usado uma vez que elege automaticamente as melhores condições de utilização, o “E-drive”, quando queremos apenas circular com o motor elétrico e, por fim, o “Sport” e o “Track” para quando pretendemos desafiar carros supostamente mais velozes como, por exemplo, o irmão M4 Coupé, expoente da evolução da BMW na direção mais desportiva. Graças ao baixo peso, o i8 acelera dos 0 aos 100 Km/h em apenas 4,4 segundos (menos uma décima que o M4 Coupé), ao mesmo tempo que faz o quilómetro de arranque em 22,8 segundos e atinge com facilidade os 250 Km/h. A sua apetência para a velocidade e excecional capacidade para recuperar é tão grande que, no modo “Sport”, o motor elétrico está programado para funcionar nos momentos em que turbo do motor a gasolina não está em plena carga e isso sente-se bem quando elegemos esse modo de condução, facilmente identificável, uma vez que o quadro de instrumentos muda de cor, ao mesmo tempo que o pedal do acelerador fica mais sensível e a transmissão automática mais reativa. Graças ao impulso dado pelo motor elétrico, as recuperações merecem também destaque quando as comparamos com o seu irmão preparado pela divisão “M” . E como nos mais desportivos da marca, também no i8 o ESP pode ser desligado parcial ou totalmente, de forma a que o condutor desfrute de uma condução mais radical, confiando no desempenho dos pneus Bridgestone, de grande diâmetro mas estreitos para que o atrito não penalize os consumos e as emissões. Oficialmente consome 2,5 l/100 Km, a que corresponde uma emissão de CO2 de 59 g/Km, isto nos primeiros 100 quilómetros, porque para repetir a dose é preciso carregarmos a bateria de 5 kWh numa qualquer tomada caseira de 16 Amperes, esperando cerca de 3 horas (2 horas se for numa iWallbox). Outra possibilidade é utilizar a capacidade geradora do motor térmico, inflacionando os consumos, ou esperar que a regeneração de energia durante as travagens e as desacelerações carregue um pouco mais a bateria.
Retomando a dinâmica e esquecendo os consumos, podemos testar as capacidades do i8 em curva com o ESP desligado, provocando a traseira, que derrapa rapidamente sem perder a compostura graças a um centro de gravidade muito baixo e a uma distribuição do peso equilibrada entre os dois eixos. Acresce que as mudanças de direção são rápidas e a travagem eficiente. Basta estarmos atentos à condução para percebermos as várias fases de funcionamento do módulo hibrido montado no i8! No fundo, é uma forma muito diferente de conduzir um desportivo mais convencional. Isso não quer dizer que não se goste e que não tenhamos as mesmas emoções. Pontos menos positivos são os dois lugares traseiros, a mala traseira ridiculamente pequena, ao ponto de o Isetta ter mais espaço de arrumação; o enorme diâmetro de viragem, com quase 12 metros e a escassa visibilidade traseira. Embora seja difícil definir que modelos concorrem diretamente com o i8, atrevemo-nos a dizer que os clientes são os mesmos de um Porsche 911 mas com maior sensibilidade ecológica. Num mundo cada vez mais tecnológico o i8 é um exemplo a seguir.
BMW ISETTA – A FORÇA DE UMA PEQUENA SEMENTE
Para além do emblema e das portas a abrirem para cima, o i8 e o Isetta pouco ou nada têm em comum. Mas como qualquer fruto apetecível, também o híbrido mais desportivo e sofisticado de que a BMW foi capaz, evolui de uma pequena semente. Foi, de facto, o Isetta que, num dos períodos mais difíceis, garantiu um futuro à BMW. Uma história tão distante que começou fora da Alemanha. Há uma explicação simples para que o Isetta não tenha nada de alemão, nem no nome, nem na aparência: foi um dos pioneiros do conceito de carrinho minimalista italiano, tão popular nas cidades europeias dos anos 50 e 60. Com o seu sentido estético imbatível, só mesmo os transalpinos conseguem conciliar os requisitos de pequenez e economia de um carro “bolha”, com os bons princípios da estética e proporcionalidade. O Isetta não é lindo de morrer, mas é giro, o que já é fantástico.
Curiosamente, foram os alemães da Messerschmitt a atacar o segmento, com o KR175, uma coisa parecida com uma rã sem pernas, de dois lugares em tandem. A vantagem é que, de tão pequenos (os carros e os motores), apenas implicavam licença de mota para serem conduzidos, um importante atrativo para a sua massificação. O KR175 apareceu em 1953, o Isetta poucos meses depois, mas ainda com a sua marca original Iso e designação de “pequeno Iso”, ou “Isetta” em italiano. Utilizava então um motor monocilíndrico de motociclo, com 236 cc e 9,5 CV de potência, e apenas uma roda traseira. Tão criativos quanto inconstantes, os italianos depressa mudaram para um projeto desportivo, o Rivolta, desembaraçando-se por completo do Isetta. Várias marcas o produziam já sob licença, incluindo a BMW, mas esta acabaria por adquirir todos os direitos e ferramentas de produção em 1955. Foi a partir desta data que o modelo sofreu uma evolução significativa. Com um motor de 250 cc da própria BMW, tornou-se no microcarro mais popular da época e no monocilíndrico de maior sucesso de sempre, com mais de 160 mil vendas. No ano seguinte a BMW aplicou-lhe duas rodas traseiras para maior segurança e o motor que temos no exemplar deste artigo, um monocilíndrico a quatro tempos com 298 cc e 13 CV de potência. Nascia o Isetta 300, capaz de uma velocidade máxima de 85 km/h.
Produzido em 1956, o modelo que aqui lhe mostramos está a meio caminho entre a primeira e uma segunda geração evoluída em 1957. Tem já o motor da segunda, mas preserva a carroçaria da primeira, sem os vidros laterais de correr e com o enorme óculo traseiro em bolha. A segunda roda no eixo traseiro é um indicador óbvio de que se trata do modelo BMW, já que os Isetta construídos sob licenças diferentes, no Reino Unido e no Brasil, por exemplo, costumam ter apenas uma roda atrás. Numa análise mais detalhada conseguimos também encontrar a assinatura alemã em todos os pormenores do carro, desde o porta-bagagens traseiro cromado às chaves de ignição, passando pela pala de sol em cartão. Foi também em 1957 que a carreira dos carrinhos “bolha” entrou em declínio. Enquanto o Messerschmitt, o Isetta e o Heinkel Kabine (outra solução do género), ficariam prisioneiros da tradição, um pequeno carro, também ele italiano, ficaria para a história como o grande assassino dos ovóides: o Fiat 500, também pequeno, também económico e de preço acessível, mas um verdadeiro carro. E dois anos depois, em 1959, chegaria a machadada final, vinda de Inglaterra, na figura do pequeno carro que quebrou todas as barreiras sociais e tombou gigantes em todas as vertentes, incluindo no desporto: o Mini. A BMW faria uma derradeira tentativa de revitalizar as vendas do Isetta ainda no final da década de 50, com a versão 600, de 1957. Era uma espécie de Isetta de chassis longo, com duas filas de bancos e uma porta lateral do lado do passeio, para aceder ao banco adicional. Como o nome indica, utilizava um motor de 600 cc com dois cilindros que lhe garantia um importante acréscimo de resposta, ainda assim insuficiente para bater o charme e eficiência do primeiro 500 da Fiat ou a indestrutível imagem de fiabilidade do VW Beetle, oponente direto desta versão maior. O ano de 1959 marcou assim o fim de uma lenda em forma de ovo e, durante longos anos, da presença alemã neste exigente segmento do mercado, onde apenas a Dailmer regressaria a sério, em 1994, com o smart, ano em que a BMW estrategicamente adquiriria a Mini.
AINDA VIVO
A produção do Isetta sucumbiu , mas basta ver ao vivo um exemplar como este para que se compreenda o sucesso do Isetta da BMW. A genialidade do projeto está em cada detalhe. A carroçaria autoportante é de assinalável solidez, ajudada pela estrutura tubular. A cinemática de abertura da porta, que traz consigo o volante e a amostra de instrumentação que se resume a um pequeno velocímetro, funciona sem percalços e transmite aquela sensação de qualidade que, sessenta anos depois ainda constitui a assinatura dos BMW. Não há neste minicarro absolutamente nada de desportivo, mas isso não significa que a sua utilização seja desprovida de emoções, pelo contrário. Um teto de lona fácil de abrir e uma enorme superfície vidrada convidam a contemplar a paisagem com invulgar envolvência, sem que as malas tenham necessariamente de ficar em casa. O porta-bagagem exterior é complementado por um razoável espaço interior, atrás do banco, sob o qual se esconde tudo aquilo a que se resume a mecânica do Isetta.
Chega-se ao pequeno motor libertando um painel de chapa na lateral, ou retirando as costas do banco. A caixa de quatro velocidades com marcha-atrás e o travão de mão com uma alavanca a sério estão colocados na lateral esquerda, demonstrando a tradicional aversão da BMW em poupar no essencial. Outro exemplo disso é a bateria de 12 volts num carrinho tão pequeno e de tão parcas necessidades elétricas, ao contrário de outros da época, como o VW Beetle, que se limitavam à tensão de 6 Volts. É por esse motivo que tudo quanto acende no Isetta o faz com intensidade, acrescentando ainda mais brilho à silhueta curvilínea do carrinho italiano que foi uma das sementes de um gigante do setor automóvel chamado BMW, nascido a 7 de março de 1916. Texto: António Amorim e Marco António