As belas e estreitas curvas de Cinque Terre

Jorge Flores
Jorge Flores
Jornalista

Contam-se pelos dedos de uma mão. Monterosso al Mare, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore. As cinco pequenas vilazinhas encostadas à costa da Riviera Liguere, a norte de Itália, foram classificadas pela UNESCO, em 1997, como Património da Humanidade. E eleitas pelo site norte-americano Lonely Planet como o melhor local para se desfrutar um momento a dois. A paisagem debruçada sobre o Mar Mediterrâneo sempre paga as despesas do romantismo. Mas Cinque Terre arrisca-se a ser bem mais do que os clichés que lhe servem de bandeira. Localizada a 130 km de Génova, 185 km de Florença e 225 km de Milão, o caminho para Cinque Terre não tem muito que enganar. Pelo menos até lá chegar. Depois, bom, por vezes, o sistema de navegação engasga-se. No meu caso, não deixou de ser estranho ouvir as indicações erradas com a voz marcante de Darth Vader: this is the way to the Force.

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À boleia de uma Musa

Qualquer guia de viagens aconselha a percorrer os 18 quilómetros de extensão entre as cinco pequenas comunas de comboio. Ou a pé. this is the way to the Force? Não. Ignorei os guias, esqueci os comboios e dispensei até o bom senso. Fi-los de Musa. De Fiat Musa. Não existirá nome mais inspirador para tornear as belas curvas talhadas pelas montanhas rochosas e espelhadas no olhar verde (ou seria azul) do mar. Perigosas e estreitas? Sim, claro que sim. Mas não o serão todas?

Estacionar nas vilas não é fácil. Em nenhuma delas. Admitamos que é até impossível para quem faça questão de respeitar a lei. Consegue-se se fecharmos os olhos e pensarmos nas origens de Cinque Terre, algures estacionadas no século XI. Um hino à resistência. Às invasões turcas do século XVI e aos regulares saques dos piratas e mercadores de escravos. Tudo isto os pacatos pescadores e agricultores da região tiveram de enfrentar na sua história. Não será uma pequena pirataria de trânsito que os incomodará. Para mais, com um Musa, já algo entradote, reconheço, mas ainda pleno de charme.

Em Cinque Terre, cada vila é parte de um todo. Como os dedos de uma mão. Todos fazem falta. Cada foto é um postal. E o desafio é encontrar um ângulo feio. Um ponto não acolhedor. Quase apetece colocar um filtro para estragar as cores perfeitas. A ironia é que, cada imagem captada pela máquina, é uma oportunidade perdida para ver fora da lente. Nem tudo pode ser enquadrado pela objetiva. Sobretudo quando escurece. Em Riomaggiore, apenas a noite tem pressa. Mas que tudo aponta às águas junto ao porto. Devagar. A Via dell’ Amore, talvez pelo peso dos cadeados, símbolo de amores passados (por lá…) é a primeira a mergulhar de cabeça no mar.

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Vinho para sobremesa

Cinque Terre não é propriamente uma região inóspita. É ponto de referência turístico e sabe disso. Não faltam quartos para alugar e opções de B&B. Entre 100 a 150 euros são mais do que suficientes para encontrar dormida com vista sobre o mar. Vale todos os cêntimos. Bem o poderia comprovar Eugenio Montale (1896-1981), que aqui fez vida. Diz-se que o Prémio Nobel da Literatura, em 1975, se perdeu de amores por Monterosso. Ou então foi pelo vinho de produção local, o doce e aveludado Passito Sciacchetria, que tanto serve para sobremesa como para inspiração divina, graças à combinação dos aromas a mel e amêndoas. Ou o pintor Telemaco Sgnori (1825-1908), que viveu e trabalhou em Riomaggiore. Talvez fosse a paixão pelos frutos do mar, pelas anchovas, pargos e robalos, regados a azeite local, que prendeu o mentor do movimento Macchiaioli (Macchie deriva de manchas), que defendia como estilo artístico as manchas em contraponto com o academicismo. Mas o provável é que tenham sido as cores, em forma de manchas, arte viva, aquilo que lhe prendeu a vista mesmo sem segurar num pincel.