De cabelo ao vento num Lamborghini de 640 cavalos

Inicialmente pensei por como título “On days like these… part III”. Mas antes que comece a procurar a parte I e II não o faça… não existem no Jornal dos Clássicos. O título prende-se com o facto deste Lamborghini ser a terceira variação do Murciélago que experimentei. Confesso que estava algo curioso por uma razão muito simples: embora seja um aficionado de roadsters, nunca encarei com bons olhos estas variantes abertas de supercarros. Sempre achei que o facto de serem abertos lhes poderia induzir algumas características dos descapotáveis mais mundanos, como vibrações e torções de carroçaria, características nada benéficas para automóveis com performances muito elevadas. O facto de a pureza de um coupé ser algo diluída é mais fácil de digerir, como vamos ver mais à frente…

A Lamborghini realizou um trabalho admirável nos reforços estruturais do Murciélago para esta versão sem capota. Ao que parece, a fatia de leão de tal integridade é a estrutura que existe no compartimento do motor. Uma peça bipartida única, com braços em fibra de carbono, que trava completamente o chassis, precisamente na zona mais crítica.

…e “sem capota” é a expressão correcta. Este automóvel foi pensado e construído para puristas, para ser sempre utilizado aberto. A única defesa que oferece, em caso de chuva, é uma capota de lona muito rudimentar que serve apenas para alguma protecção muito marginal. Os ingleses apelidaram-na de “guarda-chuva” e, de facto não passa disso. Aliás, a marca não aconselha velocidades acima de 160 km/h com este artefacto montado. Mas isto é detalhe.

O que interessa é que o Murciélago Roadster não perdeu rigidez estrutural e o prazer de condução, que toca a raia do vício, está intacto quiçá acrescido por um pormenor com muita importância: o facto de ser aberto permite aos ocupantes desfrutarem dos dotes vocais deste magnifico V12, ainda mais do que no Coupé! Se neste já é de um volume muito considerável, no Roadster é elevado à enésima potência e ouvimos todos os pequenos detalhes, como as pequenas detonações em desaceleração e o célebre urro que este V12 consegue produzir quando sobe de regime. É glorioso, para ser comedido nos adjectivos…

Em estrada é tão competente como o Coupé, ou seja, é fora de série. Não se nota qualquer decréscimo de potência ou prestações, apesar dos cerca de 100 kg a mais, com certeza ajudado pela muita generosa dose de binário disponível que este propulsor consegue produzir. É de facto impressionante, quase inédito arriscaria, como um motor que faz 8000rpm consegue ter tal docilidade e disponibilidade a baixas rotações. A unidade ensaiada estava dotada da caixa de seis velocidades E-Gear, que permite “sentir” o trabalho das engrenagens nas mudanças de velocidade, não é completamente asséptica como algumas outras…muito Lamborghini!

Como objecto de colecção faz todo o sentido. Embora não se possa dizer que um Murciélago seja comum, foi um êxito de vendas tendo sido produzidos mais de 3000 unidades na variante Coupé e menos de 900 Roadsters. Parece-me uma escolha óbvia.

Hélio Valente de Oliveira

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