Com o MotoGP em Sepang e um chá que era uma sopa

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Quando cheguei ao circuito de Sepang não tinha passe para entrar no “padock” que era onde me interessava ir mas, como bom português, convenci os vários porteiros a deixarem-me passar e, já lá dentro, fui ter com o Miguel Oliveira, o piloto português que corre nas moto3, que tratou de me arranjar um passe.

Fui depois falar com o diretor da equipa Honda de motogp para tentar organizar uma fotografia onde estivesse eu, a moto e os pilotos da marca. Ele concordou com a ideia e pediu ao Marquez e ao Pedrosa para, ao saírem do circuito fazerem a fotografia comigo e a moto, que entretanto fui buscar para dentro do “padock”.

As corridas foram espetaculares e só foi pena o Miguel ter caído na primeira volta das moto3. O Marquez voltou a ganhar nas motogp e o Rossi, com o mesmo entusiasmo dos miúdos de vinte anos, ficou em segundo.

Quanto às motogp em si cada vez que as vejo fico impressionado com a sua aceleração e velocidade em reta, superiores às de um Formula 1.

No Domingo voltei a jantar no “Hard Rock”, especialmente animado no fim de semana de motogp, e segunda feira ainda fiquei por Kuala Lampur para visitar as Batu Caves, umas grutas naturais enormes à entrada da cidade. Desiludiram-me pelo maltratadas e sujas que estão. Fui ainda procurar uns pneus novos para a moto, que os de tacos que tinha montado na Índia e que tanto jeito deram estavam no fim, mas não os consegui encontrar.

Arranquei assim na terça para Malaca com a curiosidade de constatar se ainda haveria algo de português na cidade que Afonso de Albuquerque conquistou em 1511 e que se manteve em nossa posse até os holandeses nos terem de lá corrido, 130 anos depois.

Quando cheguei dei uma volta pela cidade e parei quando vi um chamado Portugis Hotel, com as cores da nossa bandeira à porta. Embora fosse uma espelunca e a dona chinesa, a mulher foi simpática e achou graça eu ter vindo de Portugal na moto de maneira que me fez um preço especial e por ali me instalei.

O Hotel, de tetos baixos, tinha alguns móveis bons mas mau aspeto e sujidade por todo o lado.

A chinesa recomendou-me o Spa do primeiro andar e deu a entender que a massagista de serviço fazia mais que massagens.

Perguntei-lhe o que havia mais de Portugal em Malaca e indicou-me um bairro vizinho de descendentes de portugueses.

Estava a dar uma volta pelo bairro de fraca qualidade de construção quando parei, junto ao mar e de dois homens sentados no que já teriam sido bons sofás, agora apodrecidos pela exposição aos elementos, debaixo de um telheiro no que parecia ser um poiso habitual. Perguntei-lhes se havia alguma sede portuguesa e um deles, quando lhe disse que era português, pediu para me sentar ao lado dele e começou a falar comigo em português, não perfeito mas compreensível.

O seu nome era Jorge Alcântara e era descendente dos portugueses que cá tinham ficado no século XVI. Disse-me que a língua tinha passado através das gerações e ele também a ensinara aos filhos de maneira que em casa falavam sempre em português.

A comunidade de descendentes são cerca de 1200 pessoas, a maioria já com muitas misturas de raças, como é nosso costume.

Estivemos ali uma meia hora à conversa e depois ele pediu a um amigo, também supostamente português mas que falava muito pouco, para me guiar na sua “scooter” até à sede do “Portuguese Settlement”, um local com um ar decrépito, um restaurante chamado Lisbon mas onde as refeições são Malaias, e um Museu com meia dúzia da tarecos. O que foi um Lisbon Hotel, com bom aspecto, só durou dois anos como Hotel e foi depois vendido a uma Universidade que lecciona ali.

A presença portuguesa em Malaca neste século XXI tem um ar bastante miserável mas pelo menos existe e resistiu 500 anos. Para além disso algumas das nossas palavras ficaram na língua Malaia, como Escola ou Manteiga.

Almocei no restaurante do “Portuguese Settlement” pelas quatro e meia da tarde uns bons camarões em molho de ananás muito pouco portugueses e regressei ao Hotel.

Pelas nove da noite decidi ir jantar só uma sopa porque tinha almoçado já tarde.

Recomendaram-me um restaurante perto onde pedi a única sopa disponível, com esparguete.

“E para beber?”

“Um sumo natural”

“Isso não temos”

“Então o que têm?”

“Água, sumos enlatados ou chá de ervas”

Um pouco contrariado optei pelo chá de ervas. Quando o criado me perguntou se queria quente ou frio preferi quente por ter medo de beber água nestes sítios sem ser fervida.

Sabem quando os criados, satisfeitos, nos dizem: “boa escolha”?

Neste caso o homem olhou para mim com a cara exatamente contrária, como quem procura uma expressão de lucidez na minha face sem conseguir encontrar.

Quando chegou o que tinha encomendado percebi a razão de me considerar maluco. É que o caldo da sopa que vinha na tigela com o esparguete e o chá quente, servido no copo, eram exatamente o mesmo líquido.

Pus umas pingas de picante na sopa para lhe mudar um pouco o sabor e lá bebi esse chá à colher e o outro pelo copo sem me queixar.