Singapura sling

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Quando ontem à noite cheguei ao hotel depois do jantar, a menina que fazia as massagens no Spa do 1º andar estava cá em baixo na rua à minha espera, talvez por sugestão da patroa.

Perguntou-me se não queria uma massagem e eu caí na asneira de lhe perguntar o preço. A partir daí não me deixou sair dali enquanto não me explicou todas as alternativas que propunha. Como não falava uma palavra de inglês ia-me mostrando os números com o preço que gravava no telemóvel enquanto me descrevia em mímica os muitos serviços sexuais que a massagem podia incluir. Cada tratamento tinha depois um preço diferente se fosse pago através do hotel ou diretamente a ela. Ficou triste quando lhe disse que não queria nada. Tanta explicação em vão. Nem uma massagem aos pés? Não, nem uma massagem aos pés.

No dia seguinte arranquei para Singapura. Para não levar com 250 Km de auto-estrada escolhi a estrada junto à costa, bonita embora com alguns troços em mau estado, e só entrei na autoestrada a 80 Km de Singapura.

Nesta zona do mundo as entradas e saídas nos países são muito facilitadas e, se na entrada na Malásia não me tinham pedido nenhum documento da moto, aqui em Singapura só me carimbaram o passaporte e deram uma olhadela ao interior de uma das malas. Em cinco minutos tinha passado a fronteira.

Logo à entrada fiquei espantado porque estavam a lavar a estreita entrada em cimento encarnado reservada às motos com máquinas rotativas. Quando entramos no pequeno país percebemos porquê. Ali não há um papel na rua e está tudo limpo e tratado, com os jardins impecáveis e as sebes nas estradas aparadas. Nesse aspeto parece que entrámos na Áustria.

O país é relativamente recente pois só se tornou independente da Malásia em 1965, dois anos depois dos ingleses terem sido corridos da região, mas desenvolveu-se de uma maneira extraordinária. É o país do mundo que tem maior percentagem de milionários e vê-se que ali há dinheiro, com bons carros nas ruas e pessoas a consumirem nas lojas, cafés e restaurantes. E o bom é que, ao contrário do Dubai, onde é tudo demasiado novo, ali existe uma mistura do recente com o antigo, embora os prédios estejam todos bem tratados e limpos. Além disso, sendo um país pequeno, com cerca de 700 km2, sempre tem cinco milhões de habitantes e muitas zonas verdes, ajudadas pelo clima equatorial.

O regime é considerado totalitário porque embora haja eleições só concorre um partido. De qualquer forma, como há dinheiro a circular, mesmo com enormes diferenças sociais, não há praticamente desemprego nem contestação. Vivem principalmente do comércio externo, pois estão numa posição privilegiada das rotas marítimas, o que os levou também a terem uma importante frota mercante, mas além disso têm indústria pesada como a da produção de, por exemplo, plataformas de petróleo e são importantes na refinação de petróleo para abastecimento da região. Enfim, um país que funciona e nunca soube o que era uma crise financeira.

Sendo o país com o nível de vida mais caro da região é difícil encontrar um hotel barato, mas lá acabei por encontrar um embora o quarto não tivesse janela, o que me levou a trocar para o dia seguinte, por um que até era mais barato.

Nesse dia fui de manhã montar uns pneus novos na moto. Na loja que me indicaram havia várias hipóteses de escolha em “stock” o que mesmo na Europa é muito raro. O rapaz que me atendeu, dos seus trinta e poucos anos, quando lhe paguei depois de dizer que era português respondeu: “o-bri-ga-dô”

Perguntei-lhe como sabia português e ele contou-me que na escola tinha aprendido que os portugueses tinham estado na região no século XVI e o professor de história ensinou-lhes algumas palavras. É bom quando somos reconhecidos para além do futebol.