Texto: Vítor Norinha
A Ferrari anunciou em Roma, neste final de maio, o lançamento do seu primeiro modelo 100% elétrico, o “Luce”, ou luz, se quisermos a tradução. Mas a questão imediata que se coloca é como reagirão os investidores, e a pergunta não é feita por acaso. É que a concorrência, nomeadamente a Lamborghini teve planos idênticos dentro da visão de 2030 e abandonou-os porque considerou que a procura por desportivos elétrico é baixa.
Mas a casa de Maranello tem outra expetativa e, socorrendo-nos da mais recente análise da corretora XTB sobre o impacto na Bolsa de valores do lançamento do Ferrari Luce, a conclusão parece ser muito positiva. Senão vejamos: a Ferrari posiciona-se no mercado ultra premium e cada unidade terá um preço de venda ao público da ordem dos 550 mil euros, segundo a XTB, e isto significa que cada modelo Ferrari Luce irá gerar três a cinco vezes mais receita do que um modelo Ferrari standard.
A corretora acredita que com edições limitadas de algumas centenas de exemplares e ainda receitas do programa “tailor made” da Ferrari, o impacto será grande no volume de negócios. Recorde-se que a construtora automóvel italiana gerou receitas de 1850 milhões de euros no 1º trimestre deste ano e de 722 milhões de EDITDA, mais 4% em termos homólogos, e tem uma margem EBITDA de 39,1%.
Dizem os analistas da XTB que um veículo com este nível de preço reforça o posicionamento da marca no segmento de ultra luxo, e isso tende a “elevar o valor percecionado de toda a gama, incluindo os modelos a combustão”. Inclusivamente os
colecionadores podem ficar a ganhar, pois os chamados “puristas” da marca, ou seja, aqueles que esperam ter um tipo de motor a gasolina e um som característico, irão procurar mais os modelos antigos com essas qualidades, e isso fará valorizar os exemplares existentes.
No mercado de Valores a ação da Ferrari é negociada a 32 vezes em termos de múltiplos, quando a média dos últimos cinco anos foi de 45 vezes, e nos últimos 10 anos o EPS diluído (earnings per share) cresceu 15,6%. A XTB considera que para este veículo – que se sabe apenas que faz dos 0 aos 100 km/h em apenas 2,5 segundos e que tem uma potência superior a 1000 cv – que existem riscos.
Falamos das tarifas da administração Trump que impôs 25% sobre os automóveis europeus, e o mercado norte-americano é um dos mais relevante da marca italiana, enquanto os “puristas” receiam a perda de identidade sonora, ou seja, o barulho ensurdecedor de um motor a combustão, e mesmo a simulação sonora que os veículos elétricos desportivos estão a adotar, poderá não ser bem-recebido pelos clientes. Poderá ainda o modelo elétrico não valorizar tanto como os modelos com motores V8 e V12 devido à perceção de escassez, como referimos.
Os modelos mais procurados serão o 812 Superfast e o F8 Tributo. Há ainda o risco da identidade da marca, diz a XTB, ou seja, a Ferrari procurará clientes mais jovens e tecnologicamente bem informados e isso afastará os chamados clientes históricos. No final de toda esta análise, a conclusão é de que o modelo elétrico pode trazer resultados, até porque a eletrificação automotiva é uma tendência irreversível.