Um dia em Tóquio

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Tóquio é lindo. Não estava à espera. Nos filmes vemos uma confusão enorme de gente a atropelar-se, sem espaço para se mexerem. A realidade é completamente diferente. A cidade estende-se por muitos quilómetros quadrados e, no centro, tem avenidas largas e vários parques e jardins fabulosos a criarem enormes espaços verdes. Vê-se que é uma cidade relativamente recente e bem planeada.

Instalei-me no hotel e saí pelas nove da noite para jantar. Mesmo nas cidades onde há muitos turistas, como Tóquio, e por isso restaurantes de todas as nacionalidades, tenho preferido ir aos restaurantes dos locais, normalmente só frequentados por japoneses, onde janto por dez ou onze euros. Fui ao primeiro que encontrei, perto do hotel. Tinha um sistema que já tinha visto antes em Quioto. O cliente começa por se dirigir a uma máquina onde escolhe o jantar e a bebida, através de fotografias e botões e paga. Dirige-se então à mesa ou balcão e entrega os talões a um dos empregados. Como nunca há gorjetas é um sistema prático. As refeições já estão meio cozinhadas e normalmente não demoram mais de cinco minutos a vir. Os japoneses não perdem tempo com nada. Aqui até tinham uma máquina para tirar a cerveja onde a menina punha a caneca e a máquina inclinava-a e servia na quantidade certa, endireitando antes de acabar para ficar com a espuma correta.

Quando se está acompanhado, não são nada atrativos estes sistemas mas para quem está só é muito prático.

No dia seguinte fiquei de manhã a tratar de mails e escrever e saí do hotel ao meio dia e meia de capacete na mão mas, quando cheguei cá fora o céu ameaçava chuva forte e voltei lá dentro deixar o capacete e pedir um guarda chuva. Quando voltei a sair chovia muito e tive que esperar um quarto de hora para ir até à estação de metro mais próxima, ainda debaixo de chuva mas mais fraca.

Em Tóquio tinha ideia de não visitar templos e museus, que já tinha visto em cidades mais antigas e decidi antes ver coisas únicas daquela cidade.

Por sugestão da “Time” americana comecei por subir ao segundo andar do Starbucks café de Shibuya Crossing, que na pratica é um primeiro andar porque eles aqui não contam o R/C ou 0 a que chamam 1º. De aí temos vista para um dos cruzamentos mais movimentados de Tóquio, que quis filmar. A curiosidade é que neste cruzamento, às tantas, os sinais luminosos ficam encarnados para todas as cinco entradas de carros e os dos peões verdes pois para além das passadeiras que existem na entrada de cada uma das ruas há uma outra maior que atravessa todo o cruzamento em diagonal, razão pela qual os carros deixam de passar e um enxame de gente apressada invade a estrada. Espetacular visto de cima.

Ao meu lado no balcão do Starbucks, virado para a enorme janela, estava uma americana de Nova Iorque, de origem chinesa, dos seus quarenta e muitos, cinquenta anos, com uma Canon fantástica, que achou que eu tinha cara de milionário. Meteu conversa a propósito das fotografias e quis mostrar-me que estava a tentar focar chapéus de chuva encarnados.

-Olhe este que eu apanhei há bocado, não é espetacular?

-Usa uma Go pro? Que engraçado. Pensei em comprar uma.

Conversa puxa conversa e passado um bocado perguntou-me:

– Você é alemão ou suíço?

Quando lhe disse que era português a atitude dela mudou radicalmente. Consciencializou-se que eu era um pobre e quando a filha, uma miúda dos seus 25 anos, com ar vivo e esperto entretanto apareceu, despachou-me para ela, como quem se vê livre da raia miúda.

-Olhe, este senhor anda a dar a volta ao mundo de moto. Muito interessante. Tipo, fale lá com ele. Dei dois dedos de conversa à miúda e arranquei, à procura do bairro Ebisu, ali perto, que tinha lido ter bons restaurantes locais.

Quando cheguei a Tóquio pensei que as pessoas aqui não poderiam ter a mesma simpatia das da província porque é assim em todo o mundo. Estão mais stressadas, sei lá. Achei normal por isso quando, ao entrar na cidade, um dos chauffeurs de táxi a quem perguntei uma indicação, numa fila para os sinais luminosos, olhar para mim e fazer-me sinal que não, sem sequer abrir a janela. Também um miúdo nos seus vinte anos, naquela manhã ia pelo passeio a ouvir auscultadores abanou a cabeça e seguiu o seu caminho quando lhe fiz uma pergunta.

Mas depois, ao sair do Starbucks, perguntei a um trabalhador de fato de macaco e capacete plástico na cabeça onde era o bairro Ebisu e ele disse-me muito amavelmente, venha cá que lhe mostro e subiu uma enorme escadaria por onde eu teria que passar mas ele não, só para me explicar melhor o caminho que eu teria que tomar.

Depois, a seguir ao almoço um casal nos seus quarenta anos a quem perguntei como se ia para um parque que queria visitar disse-me: venha connosco que vamos nessa direção e acabaram por me oferecer um café pelo caminho.

Quando entrei no parque também dois miúdos que por ali passeavam, ela com 18 anos e ele com 20, quando lhes perguntei onde era uma parte do parque que gostava de ver, ele procurou no telemóvel e ela disse: “venha, nós vamos consigo”. Eram giros, os miúdos. Passeámos juntos durante cerca de duas horas e de cada vez que eu lhes dizia para não se prenderem comigo eles insistiam. “Não, não. Nós queremos ir consigo”. Falavam inglês e estavam a estudar alemão na universidade. Muito simpáticos. No final da tarde acompanharam-me até à estação de metro e despedimo-nos.

São atitudes que dificilmente vemos na capital de outro país e que evidenciam uma cultura e maneira de estar muito particular desta gente. Fascinante.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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