Numa rara demonstração de franqueza na indústria automóvel, os responsáveis da Renault não escondem que esperavam mais do Kadjar. Modelo de segmento C-SUV de dimensões maiores do que o Captur, o Kadjar deveria ter captado para a marca francesa as atenções dos clientes que ponderam modelos de estilo mais familiar num mercado em que propostas como o Peugeot 3008 ou o Nissan Qashqai, entre outros, beneficiam de grande popularidade.
Porém, a realidade foi outra e, apesar de vendas relativamente boas, a marca admite que esperava mais do Kadjar. Agora, recomeçando de forma simples, apostam de forma mais contundente com o novo Austral, um modelo totalmente novo no qual Bruno Vanel, responsável da área de performance de produtos da marca Renault, vê o potencial para se tornar num dos modelos de maior sucesso na Europa.
Questionado sobre os motivos que levaram o Kadjar a não cumprir as expectativas, Vanel aponta que foi feito um trabalho apurado de pesquisa e que o Austral responde a todos os pontos que eram considerados menos fortes no Kadjar.
“Sim, o Kadjar não teve todo o sucesso que esperávamos. Tratámos de analisar efetivamente porquê. Vendemos cerca de 120 a 140 mil unidades do Kadjar na Europa, o que não é um número assim tão baixo e vendemos bem, mas diria que não tivemos a imagem e a notoriedade à altura. É um segmento no qual fazemos face a uma concorrência bastante forte e que o vimos é que o Kadjar não se impôs”, começa por dizer este responsável da Renault, que justifica a sua ideia com pontos concretos.
Voltando a comparar com aquele que é um modelo de sucesso atualmente, o Arkana, Bruno Vanel aponta que “analisámos tudo isso. Quando olhamos para o Arkana, temos motorizações eletrificadas, temos um painel de instrumentos digital de 10”, um ecrã de 9” ao centro, versões topo de gama R.S. Line e um design com um conceito totalmente inovador. E, felizmente, temos um modelo em que a procura supera a capacidade de produção”.
“Diria que analisámos tudo isto que vimos com o Arkana e achamos que com o Austral atingimos o objetivo”, assegura.
Sem medo da canibalização
Outro ponto que não preocupa Bruno Vanel é o da potencial canibalização entre modelos no seio da marca. Na sua ótica, o Austral tem um posicionamento muito seguro, diferente do Captur e do Arkana, que são os outros SUV da Renault com que se poderia bater, sendo também distinto em formato e intenção comparativamente com o Mégane.
Por fim, estando a indústria a atravessar um momento delicado devido à falta de chips semicondutores, primeiramente devido à disrupção causada pela pandemia e agora agravada pela guerra na Ucrânia, Vanel argumenta que “é muito difícil sabermos que problemas vamos ter com os semicondutores” e revela que algumas das maiores dificuldades estão nos semicondutores existentes há mais tempo.
“Por exemplo, surgem mais problemas com os chips que chamamos de ‘legacy’ [antigos], do que com os desta nova geração. O Austral é de uma geração totalmente nova, pelo que tem os derradeiros semicondutores, que não são necessariamente os que estão em crise. [Mas] é bastante difícil saber”, argumenta, concluindo que “temos um problema com os [comandos dos] retrovisores elétricos, que é algo que fazemos há 30 anos e não temos problemas no ZOE ou no Mégane elétrico, pelo que é totalmente imprevisível atualmente”.
O Austral chega ao mercado em setembro (na mesma data em que chega o Mégane E-Tech), propondo unicamente versões eletrificadas, seja por intermédio de tecnologia mild hybrid de 12 V e de 48 V, seja de híbridos ´puros’ com uma nova versão E-Tech.
*Em Paris, França.
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