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Fabricantes europeus criticam primazia dada aos elétricos

As futuras regras de emissões são alvo de críticas do organismo que representa as marcas no espaço comunitário. A forma como os veículos híbridos são discriminados nesta transição, o impacto que esta mudança terá na indústria e os curtos prazos estabelecidos para atingir as metas estão na mira da ACEA

A Associação de Fabricantes Automóveis na Europa (ACEA) deixou fortes críticas à forma como a descarbonização desta indústria está a ser efetuada. No momento de balanço aos resultados do último ano, em que os 15,1 milhões de viaturas vendidas representam o melhor resultado desde 2007 (e a primeira vez que a barreira dos 15 milhões foi superada em 10 anos), foi recordado o forte investimento que está a ser feito para implementar motorizações mais limpas e o impacto que esta transição terá a nível social e económico. Mas surgem também fortes críticas à estratégia e modelo que a União Europeia quer implementar e aos meios utilizados para atingir a redução das emissões.

A falta de tempo…

Recordando o investimento e impacto social destas medidas, que pode encontrar na parte final deste artigo, a ACEA afirma que embora apoie as metas estabelecidas para 2030, a forma como são exigidos os resultados é demasiado agressiva para permitir uma transição gradual. Até porque recorda que os valores que foram inscritos nas propostas são 30% superiores à descida do CO2 nos transportes acordada na Cimeira de Paris, concluindo que o patamar intermédio da descida de 15% em 2025 é “simplesmente demasiado e demasiado cedo”.

O fator económico…

A ACEA refere que dessa forma não vai existir tempo para desenvolver e introduzir as alterações técnicas necessárias para os veículos. Este é, afirma, um fator com impacto económico, pois coloca em risco a competitividade da indústria europeia. E refere até outro importante fator económico, talvez o mais apontado como causa da pouca aceitação dos veículos elétricos, o preço.

Recordando que entre 2014 e 2017 as vendas de veículos elétricos cresceram apenas 0,8% na globalidade do mercado europeu, e que apenas representam 1,5% de todas as vendas, são apontadas razões para isso. Segundo a ACEA, o acesso a estes modelos está diretamente relacionado com o PIB per Capita (divisão do Produto Interno Bruto pelo número de cidadãos), tornando a incapacidade económica no maior fator de exclusão. E reforça a ideia afirmando que a quota de veículos elétricos é praticamente 0% na maior parte dos países onde o PIB per Capita está abaixo dos 17.000€ . Isso “diz tudo”, refere a ACEA.

Uma proposta que não é neutra

Por isso a organização defende que a introdução das novas motorizações estará dependente dos próprios consumidores. E além dos países terem de garantir as necessárias infraestruturas de carregamento e a União Europeia harmonizar os incentivos, “no que se refere à descarbonização, são os resultados que devem importar e não o caminho tecnológico que os fabricantes escolhem para lá chegar”. E conclui dessa forma que a proposta apresentada não é “neutra tecnologicamente”, ao estabelecer patamares mínimos para a aquisição de modelos com motores apenas alimentados por baterias. E o resultado é que, “o método força os elétricos, e não recompensa suficientemente outras alternativas como os híbridos de Plug-In”.

Investimentos

A ACEA recorda desde logo que estão a ser investidos pelos fabricantes 50,1 mil milhões de euros em pesquisa e desenvolvimento para cumprir as regras estabelecidas em 2021. Mas afirma que, além dos muitos gastos efetuados, deve-se recordar que a menor utilização de componentes móveis nos veículos elétricos, bem como a necessidade de outras especializações para a sua produção, vão diminuir e obrigar a alterações na força laboral. Com a agravante de alguns destes postos de trabalho dedicados às novas motorizações poderem fugir no continente europeu. Por isso vem pedir a introdução de estratégias que preparem esta alteração social.

ACEA pede uma transição natural

Esta situação leva a ACEA a concluir que a eletrificação não deve ser forçada e que (ainda antes de saber os novos bloqueios aos Diesel na Alemanha e Roma) as limitações aos motores de combustão devem ser evitadas pelos impactos negativos nos condutores e nas sociedades. Porque, afirma, estas novas regras podem comprometer tanto a descarbonização dos transportes como fazer perigar os 12,6 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos que o sector automóvel representa na Europa.

A terminar, a entidade que representa os fabricantes na Europa refere mesmo que “um negócio próspero e lucrativo é pré-requisito para a sustentabilidade”, explicando que quer simplesmente garantir “que podemos produzir veículos limpos que nossos clientes querem e podem comprar”. A conclusão final da ACEA é que “a Europa precisa de uma estratégia ambiciosa mas realista para [a redução do] CO2, e os legisladores de ver o impacto a 360º pelos objetivos pós-2021, incluindo as dimensões económica e social”.

Apesar desta aparente crítica da ACEA, existem algumas situações que podem alterar o paradigma. Embora seja espera uma transformação na indústria automóvel europeia, com os impactos decorrentes no mercado de trabalho, é de referir que algumas das críticas efetuadas podem ser rebatidas pelos que defendam a aposta nos veículos 100% elétricos. Especialmente quanto aos entraves económicos e de infraestruturas, pelas redes de carregamento que vão sendo progressivamente expandidas (como em Portugal), e pelas vantagens das economias de escala. Com a aposta que praticamente todos os fabricantes estão a fazer na mobilidade elétrica, lançando diversos modelos, os custos de baterias e outros componentes vão cair e ajudar a colocar os veículos elétricos num patamar de preços mais acessível.

Além disso, existe uma preocupação com a expansão aos vários segmentos, ajudando a criar também uma oferta mais ampla e que vai de encontro às necessidades distintas dos clientes. Não admira, portanto, que muitas marcas apontem já para metas ambiciosas para o volume e quota de vendas destas viaturas. Mas, tendo em conta o padrão de viagem em países como Portugal, com subúrbios muito próximos das grandes cidades, os híbridos de Plug-In com autonomias elétricas próximas dos 50km são, efetivamente, alternativa viável para grande parte dos condutores fazer os trajetos quotidianos sem emissões poluentes. O que os torna num importante elemento para a descarbonização, como a ACEA defende.

Num ponto a ACEA está 100% certa, pois o crescimento de importância dos elétricos no mercado automóvel europeu estará sempre dependente das decisões dos clientes. Mesmo que os legisladores possam forçar, pelas restrições à circulação, e apoiar, com incentivos, essa transição.

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