1000 quilómetros no novo Opel Crossland X ao som do rap do Manel

Rui Pelejão
Rui Pelejão
Editor-Executivo

De Lisboa à Guarda, ida e volta em todos-os-terrenos para tirar as medidas ao novo Crossover urbano da Opel. Uma viagem ao som de Kendrick Lamar e do novo rap da margem sul.

A melhor forma de conhecer um novo automóvel é fazer uma longa viagem com ele, para ir descobrindo virtudes, defeitos e feitio, que por vezes só se revelam nos pequenos detalhes de condução e utilização mais prolongada.

1000 quilómetros, arredondados de Lisboa à Guarda (bilhete de ida e volta), para participar no Rali Bridgestone First Stop Guarda, que é mais um passeio convívio, do que uma competição, foi o melhor pretexto para criar alguma intimidade com o Opel Crossland X, o novo crossover urbano da marca.

Como co-piloto para esta incursão às “highlands” portuguesas, levo o meu sobrinho Manel, de 11 anos, que é já um pequeno entusiasta de automóveis e que além de ir a ler o roadbook, vai também ajudar-me a descobrir as funcionalidades multimédia e de conectividade do Opel, que o seu velho tio, não sendo um total info-excluido, tem já algumas dificuldade preguiçosa em explorar os cantos à tecnologia onboard que a maior parte dos novos modelos oferecem

Todos a bordo, incluindo a bandeira do Benfica

Antes da viagem, a preparação. Na primeira impressão ao Crossland, a impiedosa avaliação estética de uma criança de 11 anos: “Este carro é um bocado feio, tio”.

Não dou grandes abébias para prolongar a conversa, mas sou obrigado a concordar que a volumetria (é um carro alto, mas estreito) e a forma como a sua secção lateral traseira se “arredonda” no terceiro pilar como o Adam, não fazem do Crossland o mais atraente dos automóveis.

Não será um gira-cabeças, mas isto também depende do gosto de cada um. E como há gostos para tudo…

A primeira impressão melhora quando começamos a meter lá dentro a tralha de fim-de-semana. A bagageira é de fácil acesso e com capacidade suficiente para meter a bagagem de um puto que confunde fim-de-semana com férias grandes. Até a Playstation e uma bandeira do Benfica vieram atrás.

— Para que é que levas a bandeira do Benfica, Manel?

— Pode ser precisa

Ler + O novo Crossover compacto a bater?

A bagageira tem uma capacidade de 410 litros, mais 54 litros do que o Opel Mokka X, e uma das maiores da sua classe. Também se distingue pela versatilidade, já que o piso se pode nivelar em duas alturas distintas, criando um fundo de 12 centímetros de profundidade.

Também serve para criar uma superfície plana ao rebater os bancos traseiros, ou no caso de ter instalado o sistema de carris longitudinais nos bancos traseiros, aumentar a capacidade para os 520 litros.

No fundo, este sistema permite escolher se damos mais espaço para as pernas dos passageiros dos bancos traseiros ou à mala.

Já sentado no banco do condutor regulo a posição, que é cómoda e fácil de encontrar. Fica-se uns bons centímetros acima de um carro normal de turismo, o que favorece a perceção de ser aquilo que a Opel batizou como um CUV (Crossover Utility Vehicle), que é mais um bom golpe de marketing para tentar segmentar uma nova oferta que está a crescer mais depressa do que cogumelos num pinhal, do que propriamente para se referir a um conceito inédito ou inovador.

O Opel Crossland X é baseado na plataforma do Citroen C3, fruto do namoro com o Grupo PSA, que depois deu em casamento.

Este Crossland X ficará para a história como o primeiro a ser produzido sob a égide do Grupo PSA Peugeot Citroen, liderado pelo português Carlos Tavares, que recentemente comprou a Opel à General Motors.

A França a invadir a Alemanha é sempre uma ideia napoleónica mais agradável do que o inverso, pelo menos para mim, que cultivo uma certa germanofobia, exceto no que se refere a automóveis, cerveja e música clássica.

O Opel Crossland X é baseado na plataforma do Citroen C3, fruto do namoro com o Grupo PSA, que depois deu em casamento

A plataforma usada foi “esticada” para servir as necessidades desta nova classe de crossover urbanos tão em voga, e vai ainda dar esqueleto ao novo C3 Aircross, para competir num território que em Portugal é dominado pelo Renault Captur, Peugeot 2008 e Nissan Juke, mas onde estão a aparecer novos predadores como o Toyota CH-R, Seat Arona, Kia Stonic, Hyundai Kauai e o próprio C3 Aircross.

Este será um mercado em expansão que vai anexar território dos tradicionais utilitários e das carrinhas familiares. Não tarda uma loja de barbeiro e teremos um micro-SUV.

Enquanto me perco aqui na filosofia das tendências do mercado automóvel, o meu navegador Manel já está familiarizado com aquilo que é mais importante para ele num carro — onde ligar o seu smartphone e meter a bombar a sua playlist do Spotify.

Este Crossland tem a mais recente geração do sistema IntelliLink, compatível com Apple Car Play e Android Auto, associado a um grande ecrã táctil de 8 polegadas, onde se controlam as principais funções de info-entretenimento.

No meu caso vai ser mais inferno-entretenimento.

Esperam-me 350 longos quilómetros ao som de Kendrick Lamar, de gangster rappers da margem sul, hip-hopers de Detroit e outras “malhas” do género. O sistema de som do Crossland ao menos é bom, o que no caso em apreço, não é necessariamente uma vantagem.

Pela A23 acima

A A1 no primeiro dia de julho está mais cheia do que uma lata de sardinhas. Trânsito intenso aconselha andamento moderado e dá oportunidade para apreciar melhor o habitáculo do Crossland.

Há espaço bastante razoável para os passageiros do banco de trás, caso os houvesse, altura ao tejadilho, o que aumenta a sensação de espaço a bordo. As superfícies vidradas são em maior área do que as do Mokka, o que melhora a visibilidade e a luminosidade interior. A ergonomia é correta e orientada para o condutor (por exemplo o tablier) e a qualidade geral de construção e acabamentos são de bom nível, o que é uma assinatura reconhecida da Opel.

Robustez e qualidade sem grande brilho no design, apesar de alguns apontamentos interessantes, como as aplicações cromadas ou o tablier.

Os espaços de arrumação são suficientes para a panóplia tradicional de carteira, chaves, telemóveis, garrafas de água, pacotes de pastilhas, etc, etc. O Manel já ocupou o porta-luvas com “as suas cenas”, e tudo o que se pode dizer em abono do porta-luvas do Crossland, é que coube lá tudo.

Nesta versão, não há head up display projetado no pára-brisas, nem sequer sistema de navegação (há noutras versões e níveis de equipamento), o que há é uma tecnologia que começa a ser padrão neste segmento, que é o alerta para a mudança de faixa de rodagem.

Um sensor determina se mudamos de faixa involuntariamente e desata a apitar.

O sistema está ativado por defeito e precisamos de estar sempre a carregar no botão para o calar, porque muitas das mudanças de faixas que fazemos são voluntárias e seguras e não precisam cá de apitos.

Talvez seja só eu a embirrar, mas os carros modernos apitam mais do que um árbitro do distrital

O Crossland, por exemplo, tem muito para apitar, devido aos sistemas de segurança ativa e de auxílio à condução, como o aviso de ângulo cego, o alerta de colisão eminente com deteção de peões, o sistema de travagem de emergência e um sistema de deteção de fadiga do condutor.

Um completo pacote tecnológico a que se junta um feature original e muito interessante — o sistema de apoio em viagem Opel OnStar, com hotspot wifi e botão de geo-localização em caso de emergência ou um serviço online de reservas para hotéis ou busca de estacionamento.

Deixamos a congestionada A1 em Torres Novas, e marchamos para o interior, pela A23, e posso agora soltar um pouco os cavalos do Crossland X, sem exagerar, porque por aqui há mais radares que rappers na margem sul.

O departamento de comunicação da Opel fez o favor de colocar no meu carro uma simpática cábula com os dados técnicos do meu carro, e por isso à tradicional pergunta, “Quantos cavalos tem?” que o meu sobrinho me faz, respondo : “Lê, está aí escrito nesse papelinho.”

A gama de motores do Crossland em Portugal é composta por unidades de três cilindros a gasolina com potências de 81 Cv, 110 Cv ou 130 Cv e unidades de quatro cilindros Diesel, 1.6 de cilindrada com 99 Cv ou 120 Cv.

A mim tocou-me o carro mais frugal da gama, um Diesel de 99 Cv que anuncia um consumo misto de 3,7 l/100 km. Ao preço que estão as SCUT´s para a Beira Interior, todas as poupanças são bem vindas, e apesar do consumo médio estar longe da média anunciada (fiz uma média de 5,9 l/100 km ao longo da viagem) a verdade é que este também um carro que veio para a estrada com 10 km de vida; verdadeiramente a estrear.

Conjugado com este motor tenho uma caixa manual de cinco velocidades de relações bastante longas e uma engrenagem vaga e imprecisa. As passagens de terceira para segunda são um exercício de adivinhação ou força bruta. Talvez suavize com a idade.

Em autoestrada, boa nota para o conforto de rolamento e para insonorização do habitáculo e sinal menos para a sensibilidade a ventos laterais (o carro é um pouco alto) e para uma direção que é pouco ou nada informativa e que recebe algumas “sacudidelas” que me obrigam a ter as mãos bem cravadas no volante.

Ler + Os segredos do Crossland contados por um dos seus criadores

O motor permite uma velocidade de cruzeiro de acordo com a latitude dos radares, mas em velocidades mais altas e em subidas, mostra já alguma falta de fôlego para recuperações. Está claramente mais talhado para uma utilização urbana (boa resposta a baixos regimes) e para entrar no campeonato dos consumos, não no das performances.

Estamos a chegar à Guarda já de noite e os faróis LED vão varrendo as curvas e dão uma nova luz à subida até à cidade mais alta de Portugal. Aqui a Opel está um passo à frente de toda a concorrência, porque o seu sistema de iluminação, com funções como a comutação automática entre médios e máximos é uma autêntica referência na classe

Por estradas e estradinhas da Guarda

O Rali da Guarda é uma clássica prova de convívio organizada há perto de três décadas pelo Clube Escape Livre. Destina-se a pessoas ligadas profissionalmente ao automobilismo — pilotos, organizadores, jornalistas e responsáveis de marcas automóveis e normal, que durante dois dias fingem que são o “Markku Alen” lá da rua deles. Alguns, como Rui Madeira ou Francisco Carvalho, são mesmo.

No meu caso levo o Manel como co-piloto estreante a ler road-books e não tenho grandes aspirações competitivas.

Nisto estou como o Orson Welles: “Não perguntes o que podes fazer pelo teu país, pergunta o que é o almoço.”

Partimos para a primeira etapa com uma regra a bordo — hoje escolho eu a música. E o Manel lá teve de obrigar o Kendrick Lamar a descer do palco do Crossland para dar lugar ao Arcade Fire. “No cars go” é a primeira música para darmos uma volta no centro histórico da Guarda, com passagem pela bela Sé, onde lhe mostro os gárgulas com os rabos virados para Castela.

Passo pela velha e gloriosa Taberna do Benfica, uma das mais antigas de Portugal e uma instituição da Guarda, mas a esta hora da manhã ainda está fechada. Ainda não é desta que e a bandeira do Benfica sai do porta-bagagens.

No sinuoso carrossel das ruas da Guarda, o ambiente para o qual o Crossland X foi criado, vemos que a facilidade de condução é a principal qualidade deste Crossover, ou CUV, como a Opel gosta de lhe chamar.

Ágil, fácil de manobrar e com o tamanho certo para passar nas ruas estreitas do centro histórico. A suspensão é um pouco seca o que perturba um pouco o conforto, especialmente para quem vá nos bancos de trás.

Suspensão seca e firme é uma espécie de imprimatur dos carros da Opel, que neste caso se suavizou um pouco com o toque francês no chassis.

Depois do percurso citadino, rumamos às estradinhas secundárias do concelho da Guarda para a primeira etapa. O Manel vai concentradíssimo a ler o road-book enquanto eu vou admirando a paisagem rude, mas bonita que caracteriza a Beira Alta. Granito que desponta em vegetação rasteira e rebanhos dispersos pelos vales, entre aldeias semi-desertas e meio descaracterizadas.

Chegámos a Jarmelo, local onde o Rei D. Pedro conheceu Dona Inês e onde mandou tratar da saúde dos seus assassinos. D. Pedro I mandou “Salgar aos quatro canos e arrasar” a vila do Jarmelo como vingança por esta ter sido a terra de Pêro Coelho, um dos assassinos de Dona Inês. Depois de uma visita ao conjunto antropomórfico de estátuas que retrata o episódio, seguimos estrada a fora por uma estrada estreita, mas de bom piso, onde posso dar rédea solta ao Crossland X.

Apesar de não ser um carro ágil ou com cunho desportivo, é possível aumentar o ritmo em segurança. A carroçaria pode sofrer alguns balanceamentos em encadeados de curvas, mas no geral o comportamento é previsível e sadio.

A suspensão permite ter sempre controlo dos movimentos do carro, um feeling apenas traído pela direção, que não só não nos omite informação sobre o que se está a passar por baixo das rodas, como sofre constantes descargas de motricidade que lhe provocam reações bruscas e pouco fluidas. É preciso estar sempre a aplicar-lhe pequenos corretivos.

A caixa também não ajuda pela imprecisão de engrenagem que já tinha apontado, e estes dois handicaps retiram prazer de condução ao Crossland X, já que volante e comando da caixa são os instrumentos que transmitem o prazer táctil de condução, que este Crossland X não oferece.

Apesar de não ser um carro com cunho desportivo, é possível aumentar o ritmo em segurança. A carroçaria pode sofrer alguns balanceamentos em encadeados de curvas, mas no geral o comportamento é previsível e sadio

Para compensar, atalho por um estradão de terra até ao final da etapa, e aqui o Crossland mostra que é um crossover versátil e capaz de oferecer liberdade de movimentos fora de estrada, para passeios familiares e viagens de descoberta da beleza interior do nosso país.

Essa versatilidade entre um carro talhado para uma utilização urbana, mas capaz de se aventurar por maus caminhos ao fim-de-semana é a quintessência desta proposta, que não sendo original, posiciona a Opel no segmento mais trendy do mercado automóvel nacional.

Para terminar o relato, que já vai longo, e o Rali da Guarda, uma prova de perícia na cidade. Eu e o Manel de capacetes na cabeça, a tentar não deitar os pinos abaixo e a fazer os piões como deve ser num traçado marcado no centro da cidade.

Numa competição onde há Minis, Mazda MX-5, e pilotos à séria, o melhor é meter o Kendrick Lamar aos altos berros e acenar com a bandeira do Benfica.

Afinal sempre serviu para alguma coisa.

FICHA TÉCNICA

Opel Crossland X 1.6 Turbo D ECOTEC Innovation

Cilindrada 1560 cc

Potência 99 Cv/3750 rpm

Binário 254 Nm/1750 rpm

Consumo médio 3,7l/100

Emissões CO2 95 g/km

0-100 km/h 12 segundos

Vel. Máxima 180 km/h

PVP 24.180 euros

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.