Do Nebraska ao Michigan

Rui Pelejão
Rui Pelejão
Editor-Executivo

Decorar onde ficam os estados americanos no google maps nunca é um exercício fácil. Para um americano também não é fácil distinguir a Polónia de Portugal. Mas esta viagem não é medida em quilómetros de estrada. É uma viagem de música para a estrada. Do Nebraska ao Michigan ao som de Bruce Springsteen e de Sufjan Stevens.
Arrancamos no “Nebraska”, título do sexto álbum de originais de Bruce Springsteen, um dos grandes songwriters norte-americanos da segunda metade do séc. XX.

 

A capa do álbum com um cenário on the road visto através do pára-brisas de um carro sugere uma viagem melancólica. Mas é mais que isso, é uma viagem negra ao coração da América. O álbum, totalmente acústico, que dispensou o contributo da E-Street Band é o mais negro de toda a longa discografia de Bruce. A primeira música conta a história de Charles Starkweather, um serial killer americano que matou 11 pessoas durante um longo raid on the road no Nebraska na década de 50. A música é cantada na primeira pessoa pelo assassino de 19 anos, que nos crimes se fazia acompanhar pela sua namorada Caril Ann Fugate, uma teenager de 14 anos.

O casal serviu de inspiração para os filmes “Badlands” e “Natural Born Killers”. Todas as músicas do álbum contam histórias sem esperança e de personagens em queda livre no vazio da existência. Há no entanto um ritmo de fuga compassada em alguns temas com a viola e a harmónica de Springsteen a dar a textura certa para todo o tom dark do álbum, lançado em 1983, precisamente 20 anos antes de “Michigan” de Sufjan Stevens.

 

Uma viagem a um dos “Lake states” pela voz e temas de um dos mais originais criadores da cena independente norte-americana que tinha como projeto megalómano o “50 states project”, ou seja, fazer um álbum dedicado a cada estado norte-americano. Fez três, antes de reconhecer que a ideia era “ginástica promocional”. Michigan é um álbum intimista e que expressa bem as qualidades de Sufjan Stevens como cantautor e uma das grandes vozes do pop barroco. Uma grande viagem ao Michigan, para rolar pela estrada numa velhinha Ford Bronco ao som de Sufjan Stevens. A América é tão grande, mas do Nebraska ao Michigan são apenas duas horas de grandes músicas.

Rui Pelejão