Abarth SE048 – o Grupo C da Fiat

Quando a Fiat adquiriu a Alfa Romeo em meados dos anos 80, uma das decisões do gigante italiano foi a de um retorno em força à competição da Alfa Romeo, para impulsionar a imagem da marca junto do público (a par de investigar forma de impedir a alarmante propagação da ferrugem e electrónica perecível que eram já imagem da marca de Arese).

 Sendo a Alfa Romeo absorvida pela Fiat, os seus projectos de competição passaram a estar sob alçada da Abarth, até então “apenas” encarregue do notável pedigree da Fiat e Lancia. Explique-se que o preparador designava os seus projectos experimentais como SE acrescido de um número, por exemplo o Lancia Delta S4 foi o SE038, enquanto o predecessor foi o SE037, designação até que manteve, tirando o “SE”. Daí a designação do carro deste texto, apesar de muitos o conhecerem (e até certo ponto correctamente…) por Alfa Romeo.

O regresso da Alfa Romeo passou por uma fase de experimentação, da qual resultaram o “silhueta” 164 Procar (Abarth SE046), cujo campeonato nunca chegou a arrancar, e o abortivo projecto de Indycar, usando chassis March e depois Lola acoplados a um propulsor Ferrari, oriundo do projecto de 1985. A solidez do V8 turbo era tanta que nos testes anteriores às 500 Milhas de Indianápolis, a equipa gastou 13 motores em 12 dias!

Mas aqui o que interessa é o carro das fotos, ou melhor, “os”, precisamente, os Abarth SE047 e SE048. Tal sucede porque uma das competições em que a FIAT ponderou alinhar o emblema Alfa Romeo foi o Grupo C, projecto ao qual se começaram a dedicar em 1988, já em paralelo com os programas do Procar e Indy.

O primeiro protótipo (que é o da foto tirada num autódromo, possivelmente Monza) é o SE047, e os mais atentos irão reconhecer a sua silhueta, pois é nada menos do que um Lancia LC2, equipado com o motor V10 do 164 Procar e pintado com um vermelho “à Alfa”. Ainda sobre o propulsor, explique-se que já em 1988 se antevia que as regras iriam encaminhar-se para a limitação da cilindrada em Grupo C a um máximo de 3500 cm3, e a marca tendo o V10 do “Procar” na prateleira foi fácil aplicá-lo. O SE047 era uma mula de testes enquanto a se preparava um modelo de raiz.

Este modelo de raiz era o SE048, desenhado por Giuseppe Petrotta (ex-Osella) e do pouco indicado pela obra que consultei é que teria efeito-solo, além de ser construído totalmente em fibra de carbono, como já era norma no WSC. Nas fotos notam-se as diferenças claras para o SE047: além das óbvias rodas tapadas, note-se o pára-brisas tipo “bolha” como o Peugeot 905 Evo. No geral o desenho aparentar ser dentro do que eram os Grupo C de finais dos anos 80, princípios dos 90.

Durante os testes ainda com a “mula” SE037 os V10 Procar revelaram-se problemáticos. Não é indicado o motivo exacto no livro mas aponta para a fiabilidade, destacando-se que o motor desenhado por Pino D’Agostino usava para a distribuição uma correia de comando ao invés de uma corrente metálica, como é usual nos carros de competição pela capacidade de suster um maior esforço.

No entanto, não havia problema em arranjar um substituto compatível. O “peso-morto” foi rapidamente substituído por um V12 de aparência muito similar a outras unidades oriundas de “um outro construtor italiano” conhecido pela produção de desportivos, com a excepção de que as tampas das válvulas tinham escrito Alfa Romeo. Na obra que consultei não diz o nome do dito construtor, mas não será difícil perceber que se refere ao motor do Ferrari 640 de F1, com um motor V12 3.5 que assentava que nem uma luva aos regulamentos. Não é mencionado se usava a caixa de velocidades semiautomática da F1.

Infelizmente para os fãs de sportscars, que decerto gostariam de ver a Alfa Romeo regressar em grande às provas de velocidade a nível mundial, e até com um “cheirinho” da Ferrari, estes carros nunca fizeram uma corrida que fosse. As fotos que vos apresento do SE048 são do único exemplar em existência, que está num museu. Entre as razões enumeradas para o abandono do projecto constam a ideia da Fiat em que a Alfa Romeo beneficiaria mais em ter um carro que fosse mais familiar ao público a correr. Daí a decisão de se ter avançado em força para os turismos a partir de 1991 com o Sedan 155 (Abarth SE053), seguindo-se a longa carreira no DTM e em séries similares.

Outro motivo prendia-se com a instabilidade das regras do Grupo C, que o tempo mostra-nos agora estava a aproximar-se do fim, muito por culpa desses mesmos regulamentos. Ironicamente, os turismos para os quais se virou a Alfa Romeo e onde tanto investiu para recuperar a sua imagem veriam também a ter as suas asas cortadas pela FIA em 1996. E para por sal na ferida, hoje em dia, apesar de advogar a imagem de marca desportiva, não há nenhum programa de competição da Alfa Romeo desde a retirada do 156 do Mundial de Turismo em 2007.

Um detalhe final em como este carro juntou ao que eram na altura todas as marcas do Grupo Fiat: Abarth (Fiat) na preparação, Alfa Romeo no nome, Lancia no protótipo inicial e Ferrari no propulsor!

Texto: Francisco Cunha

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