Lisboa-Dakar 2008: Quando o medo ‘falou’ mais alto

Cumprem-se hoje precisamente dez anos em que uma onde de choque abanou fortemente a caravana do Dakar. No dia seguinte, veio a decisão dolorosa oficial, com o Lisboa-Dakar a ser anulado… sem sequer começar.

A política foi mais forte que o desporto! Na véspera do maior rali do mundo sair para a estrada, a desilusão tomava conta da caravana. Pela primeira vez em 30 anos, o Dakar era cancelado. ‘Razões de Estado’ invocadas pelo Governo francês levaram a Amaury Sport Organization a suspender a corrida em nome da segurança. “Foi uma vitória do terrorismo”, lamentou, na altura, Etienne Lavigne, “mas o cancelamento impunha-se”. Dez anos depois, estamos prestes a partir para a 10ª Edição do Dakar sul-americano.

Ao longo de 30 anos, o Dakar tinha conseguido sobreviver a tudo. À morte do seu criador, aos trágicos acidentes envolvendo concorrentes, às pistas do Níger e da Argélia, ao deserto do Ténéré, às minas que explodiam em Marrocos, às guerrilhas armadas e ao banditismo, aos conflitos regionais nos países limítrofes, às pressões ambientalistas, à supressão de etapas, às mudanças de percurso, até mesmo a uma gigantesca ponte aérea que parou o rali durante cinco dias. A tudo o Dakar tinha resistido. Às vezes tremendo, é certo, mas nunca se vergando. Desta vez, porém, o terrorismo falou mais alto e o Dakar sucumbiu, pela primeira vez, à guerra do medo, deixando a nu todas as fragilidades de uma prova que, por estar demasiado exposta ao mundo, se tornou num alvo privilegiado de todas as ameaças.

A crescente mediatização do Dakar, os sucessivos recordes de presenças, a própria previsibilidade do percurso a isso ajudaram. Pior que isso, abriu-se um perigoso precedente cujas dimensões o mundo, infelizmente, foi conhecendo ao longo dos anos. Na altura, foi a primeira vez que um evento desportivo à escala global foi anulado por receio de atentados terroristas.

Houve o receio que essa anulação significasse o fim do Dakar, mas como agora sabemos, não foi isso que aconteceu, foi apenas o início de uma nova era, com a passagem da prova para um novo e mais pacífico continente.

Cadeia de incidentes

No epicentro desta inédita e drástica decisão, anunciada em conferência de imprensa extraordinária pelo próprio Etienne Lavigne, na véspera do rali sair para a estrada, esteve um alerta do Governo francês “desaconselhando fortemente” os seus cidadãos, concorrentes ao Lisboa-Dakar incluídos, a deslocarem-se à Mauritânia. O aviso fora dado pelo porta-voz do executivo de Sarkozy, Laurent Wazuqueiez, advertindo para a insegurança vivida naquele país e para o risco de ataque terrorista contra interesses franceses no Magreb, relembrando que a 24 de dezembro tinha sido assassinados quatro turistas franceses e, apenas três dias depois, num atentado contra a base de El-Ghallawija, a norte da Mauritânia, mais três militares foram executados.

Dois actos “lamentáveis, isolados e que em nada beliscam a imagem do país”, apressou-se a dizer o Governo mauritano, acrescentando que as informações difundidas pela rádio Al-Arabiya eram “notoriamente imprecisas”. Embora garantindo um reforço extraordinário à segurança de toda a caravana, as autoridades daquele país viram-se impotentes para travar o rumo da história, até porque o Governo de Paris invocou depois “razões de Estado” para parar o rali. Facto consumado.

Ameaça não era limitada

Riscando a solução de um desvio da Mauritânia e mostrando-se indisponível para organizar uma prova mais curta – entre Lisboa e Marrocos, como chegou sugerir a Lagos Sports -, a A.S.O. levantou, enfim, a ponta do véu, revelando a verdadeira dimensão do problema. “As ameaças não se limitam apenas à Mauritânia, mas a todo o rali”. Mais tarde, a Agence France Press (AFP) avançava que o Ministério francês dos Negócios Estrangeiros, que sempre se recusou a comentar ou explicar as suas recomendações, estaria, afinal, na posse de uma mensagem da organização extremista Al-Qaeda, datada de 29 de dezembro, e interceptada pelos serviços secretos, com ameaças concretas à caravana, “num ataque onde seriam usados lança-mísseis”.

Anulada a ameaça, foi tempo para os inevitáveis balanços. Neste ponto, não havia dúvidas, já que todos – mesmo todos – sairam a perder: Organização, equipas, pilotos (particularmente os amadores), patrocinadores, público mas, sobretudo, África. É que para as populações mais carenciadas, das mais pobres do planeta, um dia do rali significava, não raras vezes, o sustento de um ano. Sem as suas ajudas e acções solidárias, é todo um continente que saiu a perder. O cancelamento do Dakar, custou vidas no futuro. Mais até do que aquelas que se quiserem proteger, por mais dura que essa comparação possa parecer.

Recusa das seguradoras ‘ajudou’

Era, senão mesmo impossível, identificar uma só causa directa para o primeiro cancelamento da história do Dakar, já que para além da ameaça terrorista e das consequentes pressões políticas pesou também uma motivação económica. Logo que o Governo francês desaconselhou os seus cidadãos a deslocarem-se à Mauritânia, as companhias de seguros que cobriam os riscos da organização do maior rali do mundo optaram por retirar-se, deixando a A.S.O. por sua conta e risco, pois caso a prova avançasse e se verificasse algum atentado terrorista, ou qualquer outro tipo de incidente, não haveria qualquer compensação económica aos envolvidos.

Por outro lado, sabe-se que a Total – a petrolífera oficial do rali, responsável pelo fornecimento de todos o combustível em África – deu ordens aos seus colaboradores para desmobilizarem do terreno logo na madrugada de sexta-feira, portanto, muitas horas antes do anúncio oficial de Etienne Lavigne, e numa altura em que se discutiriam ainda no CCB planos alternativos ao percurso. Na altura, o Expresso avançou mesmo que terá sido o próprio Nicolas Sarkozy a ordenar a retirada da Total (empresa pública francesa), hipótese prontamente rejeitada pela petrolífera, que garantiu ter estado sempre solidária com a Organização. Fosse como fosse, o rali acabou logo que o executivo francês invocou “razões de Estado” para a não-realização da prova. “A partir daí, já nada era discutível”, lembrou Etienne Lavigne.

“Insegurança foi pretexto” acusou a Mauritânia

A decisão de anular o Lisboa-Dakar colheu o Governo da Mauritânia de surpresa e justificou a intervenção, em conferência de imprensa, do Ministro do Turismo, Ba Madine, presente em Lisboa. “Quero exprimir a minha solidariedade para com os concorrentes e dizer-lhes que compreendo a sua tristeza, deceção e incompreensão. O Governo da Mauritânia garantiu e pôs à disposição dos organizadores meios excecionais para assegurar a segurança da prova e de todos os seus concorrentes. Foram disponibilizados dois mil militares e outros tantos civis faziam parte dessa garantia”. Nesse contexto, prosseguiu, “só podemos interpretar que a evocação de insegurança no nosso país serviu apenas como pretexto para a anulação da prova”.

No entender de Ba Madine, “esta é a pior maneira de fazer face ao terrorismo. Pelo que sabemos, a Al-Qaeda reivindica as suas acções. E isso não se passou no único acontecimento isolado que despoletou todo o clima de aparente insegurança”, analisou.
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